O Calor do Teu Olhar
Ela carregava um frio escondido — desses que começam por dentro e só quem conhece reconhece. Caminhava pela tarde como quem tateia o ar, à procura de um ponto de luz que não sabia nomear. Sentou-se perto do rio. A água seguia seu rumo, indiferente, levando folhas e reflexos sem perguntar nada. Era sempre ali que a memória chegava primeiro: pelas pálpebras, pelas frestas, pelo silêncio. E veio. Tua imagem. Melhor dizendo: o instante exato em que teus olhos pousavam nos dela, como quem acende alguma coisa que ainda não sabe se quer acender. Havia calor ali. Simples, direto, inteiro. Ela respirou fundo, como quem tenta guardar dentro do peito aquilo que já foi abraçado pela distância. A tarde inclinava-se para a noite, e o vento soprava com o desinteresse de quem nunca soube consolar. Queria teu olhar. Não o objeto da saudade, mas o gesto — aquele breve milagre de presença que se formava no encontro das pupilas. Aquele brilho teimoso que, por segundos, suspendia o mundo. ...