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Mostrando postagens de novembro, 2025

O Calor do Teu Olhar

Ela carregava um frio escondido — desses que começam por dentro e só quem conhece reconhece. Caminhava pela tarde como quem tateia o ar, à procura de um ponto de luz que não sabia nomear. Sentou-se perto do rio. A água seguia seu rumo, indiferente, levando folhas e reflexos sem perguntar nada. Era sempre ali que a memória chegava primeiro: pelas pálpebras, pelas frestas, pelo silêncio. E veio. Tua imagem. Melhor dizendo: o instante exato em que teus olhos pousavam nos dela, como quem acende alguma coisa que ainda não sabe se quer acender. Havia calor ali. Simples, direto, inteiro. Ela respirou fundo, como quem tenta guardar dentro do peito aquilo que já foi abraçado pela distância. A tarde inclinava-se para a noite, e o vento soprava com o desinteresse de quem nunca soube consolar. Queria teu olhar. Não o objeto da saudade, mas o gesto — aquele breve milagre de presença que se formava no encontro das pupilas. Aquele brilho teimoso que, por segundos, suspendia o mundo. ...

Recolhendo os Pedaços

Lívia percebeu que precisava recolher os pedaços numa manhã sem cor, quando a luz entrou pela janela como quem não quer se comprometer. Havia meses ela circulava pela própria vida como uma visitante, movendo-se devagar, furtiva, tentando não tocar em nada que pudesse quebrar ainda mais o que já estava em ruínas. Sentava-se no sofá e via os dias deslizarem, não como quem vive, mas como quem assiste. A sensação era a de estar na última fileira de um cinema vazio: o filme avançando, e ela ali, imóvel, sabendo que nenhuma cena podia ser alterada — só revista, nunca corrigida. Desde que ele partira, um estalo seco atravessara sua existência. Não era apenas ausência; era uma fratura. O mundo de Lívia, antes inteiro, espalhara-se pelo chão em fragmentos pontiagudos. Cada pedaço, quando visto de perto, apontava para um tempo que já não existia — uma cozinha com cheiro de café, um riso que interrompia o silêncio, o jeito dele de encostar a mão nas costas dela ao passar pela sala, como quem ...

Aquilo Que Caminhava Atrás

A tristeza parecia devorá-la viva. Não de um jeito explosivo, desses que deixam os olhos vermelhos e o corpo trêmulo. Era uma devoração paciente, quase delicada, como se alguém mordesse por dentro as paredes do seu silêncio. Ela seguia o dia com uma espécie de economia emocional: passos que não faziam barulho, palavras medidas como quem pesa moedas raras. A cidade a engolia num fluxo de ônibus, vitrines, buzinas e rostos rápidos, e ela deixava ser levada, porque resistir exigia uma força que não tinha mais. Algumas pessoas notavam que havia algo errado. Outras preferiam não notar — como sempre. Numa tarde de vento frio, enquanto esperava o semáforo abrir, sentiu uma mudança mínima no ar: não um frio, mas uma proximidade. Algo caminhava atrás dela. O som era discreto, quase educado, como se pedisse licença para existir. Ela não virou. Virar seria admitir. Seguiu em frente. O som acompanhou. Na vitrine de uma loja fechada, viu seu reflexo — e viu também outra coisa: uma d...

Por Que Deixei...

Aninha passava os dias se debatendo entre o que fez e o que deveria ter feito, entre o que disse e o que poderia ter dito. Havia manhãs inteiras em que ela amanhecia dentro desse labirinto — um corredor estreito onde as perguntas ecoavam mais alto que qualquer resposta. O pior é que ela sabia: não existia resposta. Existia apenas o tempo. Aquele tempo que ela achou, com a inocência dos que amam sem imaginar o fim, que sempre teria de sobra. Durante tantos anos, eles deixaram momentos para depois. Pequenos: o café que podiam ter tomado devagar, a conversa que ficou para “quando der”, o toque que ela esqueceu porque estava cansada, a risada que ele segurou porque tinha pressa, o abraço que os dois acharam que poderiam dar no fim do dia — e o fim do dia veio, mas não o abraço. Outros momentos eram grandes: viagens adiadas, segredos não contados, planos que ficaram pendurados no varal da vida, balançando ao vento, esperando uma coragem que não veio. Por um motivo ou outro. Ou por ...

A Mosca na Sopa

  A mosca caiu na sopa antes mesmo de alguém se dar conta de que havia sopa. Era uma mesa ajeitada às pressas, dessas que parecem alegres por obrigação: flores cansadas num copo de requeijão, talheres ligeiramente tortos, guardanapos de papel fingindo elegância. O jantar era para celebrar uma dessas pequenas vitórias que ninguém sabe exatamente se deve comemorar ou esconder — mas, como toda família precisa de um pretexto para sentar junto de vez em quando, inventou-se a sopa. E lá estava ela: uma tigela funda, fumegante, quase respeitável… até a mosca pousar. Pequena, insolente, dona de si. Flutuando com a calma de quem entende mais da vida do que os humanos à mesa. Quem percebeu primeiro foi Júlia, a filha do meio, especialista em detectar falhas antes dos outros. Ela arqueou a sobrancelha — sua forma educada de dizer “eu sabia que isso ia acontecer” . — Tem uma mosca — anunciou, sem drama, como quem comenta a previsão do tempo. O pai, recém divorciado e ainda tentando p...

De Luto Pela Morte De Uma Verdade

  A verdade morreu numa terça-feira, mas ninguém comentou o assunto. Não por falta de coragem — mas porque, sinceramente, ninguém sabia onde enterrá-la. Foi Anna quem percebeu primeiro. Estava procurando um lenço na gaveta da cômoda quando encontrou, entre um elástico de cabelo e uma caneta sem tinta, um espaço. Sim: um espaço. Um espaço onde antes havia alguma coisa que sustentava o resto. — Não tá aqui — murmurou. — O quê? — perguntou Samuel, sem virar o rosto. — Aquilo. — Ah. Ele entendeu. Doeu nos dois ao mesmo tempo, mas de modos completamente diferentes. Para ela, a morte da verdade vinha com o susto. Para ele, com o alívio. Anna puxou uma cadeira, sentou-se devagar e ficou olhando para a própria mão como se procurasse ali o rastro de algum crime. Samuel acendeu o rádio, baixinho, para fingir normalidade. No entanto, bastava respirar para sentir a diferença: o ar estava torto. Uma casa onde uma verdade morre nunca permanece alinhada.   Tentaram se...

A Imagem Na Colher

  A vida do homem parecia de cabeça para baixo, como o rosto refletido na colher de sopa que ele costumava mostrar aos filhos nos jantares do passado. Depois foram os netos que riam quando ele virava o cabo para cima e o rosto se invertia, comprido e engraçado. Era um truque bobo, mas ali fazia sentido. Hoje, a colher descansava na gaveta, sem plateia, sem função. Desde que se aposentara e a companheira resolvera encerrar o casamento de quarenta anos — não por briga, mas por um desgaste lento, quase imperceptível para ele — tudo no mundo parecia deslocado. A casa tinha o mesmo tamanho, mas ocupava um espaço maior dentro dele. As manhãs eram longas demais; as noites, vagas demais. O silêncio não era pesado, só contínuo. Ele tentou seguir algumas recomendações: mudar os móveis de lugar, rever amigos, ocupar a cabeça. Nada se encaixava. Havia dias em que acordava acreditando que apenas dormira mal; outros em que saía para caminhar e se dava conta de que não estava indo a lugar ...

A Menina da Echarpe Vermelha

A echarpe vermelha apareceu antes dela — um rasgo de cor atravessando a calçada pálida, balançando no vento leve, como se anunciasse alguém que não queria ser anunciada. Ela veio logo atrás: casaco claro, saia azul simples, cabelo preso às pressas. Nada nela chamava atenção além daquele tecido vermelho, fino, gasto nas bordas, que parecia pertencer a uma vida ligeiramente mais ousada do que a que ela carregava no rosto. Sentou-se no banco da parada de ônibus como quem tenta fazer as pazes com o próprio corpo antes de qualquer decisão. Ajustou a barra da saia, cruzou as mãos, puxou a echarpe para frente — talvez para se proteger, talvez para se esconder. A cidade passava por ela sem registrar nada. Era uma tarde comum, de rotinas repetidas, de gente caminhando depressa sem olhar para os lados. Ainda assim, ela mantinha a postura de quem espera ser vista — não por todos, mas por alguém específico, duas ruas adiante e alguns meses depois da última tentativa. Dentro da cabeça dela, ...

O Homem Que Dançava

A primeira vez que o vi ele dançava no Flon, numa tarde quente de verão. Aquela luz forte que desce entre os prédios deixava tudo meio desbotado, menos ele. Um homem pequeno, magro, barba por fazer, o rosto marcado de quem já viveu coisas difíceis demais para a idade que parecia ter. Só mais tarde eu soube que ele era espanhol — algo no modo de mexer a boca já entregava um pouco do sotaque — mas naquele dia ele era só um corpo tentando se mover. Ele mexia o pé devagar, como se estivesse testando o chão antes de confiar nele. Depois soltava um ombro, depois o outro. Nada bonito. Nada planejado. Era só um corpo tentando não endurecer. Passei e achei curioso. Só isso. Nem parei. Agora era inverno. E o inverno em Lausanne não chega gritando — chega com uma delicadeza que engana. O frio não ataca de uma vez; primeiro, toca. A luz baixa encosta nos telhados e acende aquela coroa branca nos Alpes, como se alguém tivesse desenhado silêncio em cima deles. As ruas ficam mais vazia...

"Amor, Meu Grande Amor"

O restaurante não tinha nome visível. Apenas uma porta vermelha que deixava escapar um fio de luz âmbar para a rua estreita. Ali dentro, o cheiro era uma mistura discreta de anis, vinho derramado e o perfume quase apagado das flores secas que alguém teimava em renovar. Mara entrou primeiro. Olhou em volta como quem reconhece um lugar que nunca tinha frequentado. O teto baixo criava sombras que se moviam devagar, acompanhando o balanço das luminárias. Era difícil saber se aquilo era acolhedor ou levemente perigoso — talvez as duas coisas. Edgar já estava sentado na mesa do fundo, perto de uma prateleira de vidro cheia de garrafas antigas que ninguém sabia se eram colecionáveis ou apenas esquecidas. Quando ela se aproximou, ele fechou o livro que não estava lendo de verdade. — Você veio mesmo — disse Edgar. — Eu disse que viria. — Eu sei. Mas entre dizer e vir… cabe meio mundo. Ela tirou o casaco. Um aroma quase imperceptível de hortelã passou por ele, mais lembrança do que p...

" O Chamado do Vazio - L´Appel du Vide"

  Há noites em que o silêncio respira mais alto do que qualquer ruído. Foi numa dessas que ele começou a ouvi-lo — um sussurro seco, áspero, como se viesse do fundo de uma fenda invisível. Não era voz humana. Era ausência. Era o chamado do vazio. A primeira vez aconteceu na curva mais alta da colina, onde a cidade se encolhia lá embaixo como um punhado de luzes trêmulas. Ele parou, sentiu o vento cortá-lo pela metade e percebeu que havia algo esperando. Algo que não tinha forma, nem rosto, nem nome. Só uma pulsação, fraca, mas insistente. Um vem que não precisava de língua para existir. E ele quase foi. Não por coragem. Nem por desejo. Mas porque havia, naquela borda, algo terrivelmente familiar. Como se o vazio reconhecesse nele uma lacuna antiga — uma rachadura nascida sei lá quando, talvez no dia em que o mundo começou a pesar demais. A sensação era tão nítida que ele deu um passo sem perceber. Só parou porque a pedra se soltou antes de seu pé avançar. O som seco do casca...

Quem Está Emprestando os Olhos Pra Você Ver...

Qualquer um de nós, amor. Tua filha, teu filho, ou o nosso caçula...ou eu. Tua ausência física é um silêncio enorme, desses que ecoam. Faz falta o teu corpo aqui — teus passos no corredor, tua respiração à noite, teu riso escapando quando tentavas disfarçar. Faz falta o gesto simples de tu chegares na porta e perguntares como foi o dia. Faz falta tua mão quente segurando a nossa, tua voz rouca que sempre sabia a hora certa de falar… ou de ficar quieta. Mas, mesmo com esse vazio tão vivo, somos um pouco de ti todos os dias. As paisagens que estamos vendo — são do teu agrado? Tua filha te empresta os olhos dela quando vê o pôr do sol se deitando nos Alpes coroados de neve. Ali, naquele brilho prateado que sempre te comovia, ela sente teu espanto antigo, teu jeito de olhar para o horizonte como quem procura sentido. Teu filho, parceiro e colega de vida e profissão, te empresta os olhos quando observa os animais da fazenda, a terra que tu amaste e nunca abandonaste por dentro...

Sonhos Empacotados

   Naquela manhã de setembro — uma manhã que deveria ser comum, deixar o dia seguir seu rumo — ela acordou antes do sol. O céu ainda era um cinza difuso, daqueles que parecem decidir devagar se cedem ou não ao dia. Ela, que sempre confiara na teimosia da luz, abriu a janela esperando que o sol insistisse, como sempre fazia. Mas o sol não veio. E foi ali, nesse intervalo entre noite e dia, que ela percebeu: ele tinha partido. E algo dentro dela — um lugar que ela nem sabia nomear — silenciosamente partiu junto. Durante muitos anos, ela tinha sido uma jovem em relação aos sonhos. Não à idade, mas ao fôlego. Vibrava como quem ainda tem toda a vida se abrindo à frente. Alegre por pequenas vitórias: — quando terminava um livro que a deixava diferente do que era antes; — quando acertava os temperos do almoço; — quando ouvia o barulho do correio e imaginava boas notícias; — quando o time ganhava na prorrogação e ela gritava feito menina; — quando achava um vestido antigo no ...

Ela Fala, Ele Fala, O Silêncio Fala

  1 - COPO DE CRISTAL... ela fala   A primeira coisa que ela ouviu foi o som — um tilintar curto, quase imperceptível, vindo de dentro da casa vazia. Não era vento, nem madeira, nem aqueles estalos que anunciam o fim do dia. Era um som delicadíssimo, como unha batendo contra cristal para dizer: aqui ainda existe algo . Ela seguiu o som com passos cuidadosos. Já não esperava que nada, absolutamente nada, tivesse força para surpreendê-la naquele território onde cada objeto carregava a respiração dele. Mas o ruído veio de novo — leve, insistente, quase um chamado. Sobre a mesa onde ninguém tocava há meses, estava o copo. Não lembrava de tê-lo deixado ali. Não lembrava sequer de ele existir. O curioso é que o cristal não brilhava como um copo qualquer. Tinha uma claridade própria, uma pequena chama imóvel. Um desperto. Aproximou-se devagar. O copo não se moveu, claro. Mas o ar ao redor parecia ligeiramente mais morno — a mesma sensação de quando ele pousava a mão n...

A Cidade dos Bichos Despertos...História Infanto Juvenil

CAPÍTULO 1 – A NOITE DA VIRADA   A tempestade veio como um aviso. Não daqueles que os humanos escutam — porque estavam ocupados demais discutindo, correndo, acumulando coisas que não precisavam. Quem ouviu o aviso foram os animais. A terra vibrou sob as patas das capivaras. Os pássaros bateram as asas inquietos no escuro. Os gatos olharam para um ponto invisível no ar, como se enxergassem um futuro torcido. E os cães uivaram — não por medo, mas por pressentimento. Naquela madrugada, o universo tomou sua decisão. Quando Vila Mansa amanheceu, seres humanos estavam trancados dentro de jaulas de cipó. Não era vingança: era contenção. O universo sabia que, soltos, eles reagiriam mal ao que viria. E o que viria seria grande. No centro da praça, os animais se reuniram. Cada espécie mandou seu representante. Era uma assembleia inédita. O pardal pequeno foi o primeiro a falar: — Eles estragaram tudo. As árvores morrem sem aviso. Os rios não respiram. As luzes nunca dormem. A...