" O Chamado do Vazio - L´Appel du Vide"
Há noites em que o silêncio respira mais alto do que qualquer ruído. Foi numa dessas que ele começou a ouvi-lo — um sussurro seco, áspero, como se viesse do fundo de uma fenda invisível. Não era voz humana. Era ausência. Era o chamado do vazio.
A primeira vez aconteceu na
curva mais alta da colina, onde a cidade se encolhia lá embaixo como um punhado
de luzes trêmulas. Ele parou, sentiu o vento cortá-lo pela metade e percebeu
que havia algo esperando. Algo que não tinha forma, nem rosto, nem nome. Só uma
pulsação, fraca, mas insistente. Um vem que não precisava de língua para
existir.
E ele quase foi.
Não por coragem. Nem por
desejo. Mas porque havia, naquela borda, algo terrivelmente familiar. Como se o
vazio reconhecesse nele uma lacuna antiga — uma rachadura nascida sei lá
quando, talvez no dia em que o mundo começou a pesar demais. A sensação era tão
nítida que ele deu um passo sem perceber. Só parou porque a pedra se soltou
antes de seu pé avançar. O som seco do cascalho despencando o arrancou de
volta.
Mas o chamado ficou.
Tentou afogar o pensamento
em tarefas banais. Comprou pão. Lavou louça. Respondeu mensagens. Sorriu
automaticamente para desconhecidos. Mas, como buraco negro, o chamado puxava
tudo de volta.
À noite, estava de novo na
colina.
Não lembrava de ter
escolhido ir. Simplesmente aconteceu. Como se alguém dentro dele tivesse
assumido o volante.
Desta vez, o vento não
soprava. O ar era pesado, parado, quase sólido. A escuridão parecia ter ganhado
um tom mais fundo. E lá estava o vazio — esperando-o com uma fidelidade
assustadora.
Ele fechou os olhos.
O mundo inteiro pareceu
escorrer por entre seus dedos.
E então ouviu.
Não era um vem.
Era um “volta”.
Volta para onde? Ele nunca
soube responder. Só compreendeu, tarde demais, que o chamado não vinha de fora.
Vinha de dentro. Era a parte dele que sempre quis desaparecer, que sempre
caminhou na borda do risco, que sempre encontrou conforto no escuro porque ali
ninguém exigia explicações.
Aquela parte, aquela
sombra, queria ser ouvida.
Abriu os olhos. O abismo o
encarava sem promessas.
Ele recuou um passo.
O chamado sussurrou mais
forte.
Recuou outro.
O chão pareceu lamentar,
como se perdesse algo precioso.
Então, ele entendeu: o
vazio que o chamava não queria devorá-lo. Queria lembrá-lo de que ele existia —
inteiro, cheio de fraturas, mas existia. Que o desejo de cair era, às vezes, só
a vontade desesperada de sentir que ainda havia escolha.
E, por isso mesmo, ele se
afastou.
Não venceu o vazio. Não o
derrotou. Apenas caminhou de volta para a cidade, sabendo que aquela voz jamais
silenciaria.
Mas naquela noite — apenas
naquela — ele escolheu não atendê-la.
O vazio permaneceu ali,
faminto, eterno, paciente.
Esperando a próxima vez.
Silvia Marchiori Buss
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