A Imagem Na Colher

 A vida do homem parecia de cabeça para baixo, como o rosto refletido na colher de sopa que ele costumava mostrar aos filhos nos jantares do passado. Depois foram os netos que riam quando ele virava o cabo para cima e o rosto se invertia, comprido e engraçado.

Era um truque bobo, mas ali fazia sentido.

Hoje, a colher descansava na gaveta, sem plateia, sem função.

Desde que se aposentara e a companheira resolvera encerrar o casamento de quarenta anos — não por briga, mas por um desgaste lento, quase imperceptível para ele — tudo no mundo parecia deslocado. A casa tinha o mesmo tamanho, mas ocupava um espaço maior dentro dele. As manhãs eram longas demais; as noites, vagas demais. O silêncio não era pesado, só contínuo.

Ele tentou seguir algumas recomendações: mudar os móveis de lugar, rever amigos, ocupar a cabeça. Nada se encaixava. Havia dias em que acordava acreditando que apenas dormira mal; outros em que saía para caminhar e se dava conta de que não estava indo a lugar algum.

Começou a escolher ruas que nunca tinham feito parte da vida a dois. Não era rebeldia; era curiosidade tardia. Nessas caminhadas, às vezes sentia um leve desconforto — como se estivesse entrando em territórios onde “nós” nunca existira. Uma sensação quase física de infidelidade a uma rotina extinta.

Certo dia, parou diante de uma cafeteria e viu seu reflexo distorcido no vidro. Não era a sua imagem que o incomodava, mas a constatação de que não sabia mais o que fazer com ela. Entrou. Pediu um café. Observou pessoas que pareciam estar à vontade com seus próprios vazios. Ele não estava.

Na volta para casa, andou devagar. Reparou em detalhes antes invisíveis: uma fachada descascada, um gato dormindo num tapete de porta, um par de tênis esquecido numa lixeira. Coisas que nunca chamariam atenção se a vida ainda estivesse no eixo.

À noite, abriu a gaveta da cozinha. Pegou a velha colher.
Sem motivo especial — só pegou.

Aproximou o metal do rosto. O reflexo veio torto, estreito, invertido. Não tentou ajustar. Não buscou sentido.
Apenas olhou.

Depois guardou a colher, apagou a luz da cozinha e ficou parado um instante, escutando o barulho quase imperceptível da casa.

E seguiu para o quarto.
Sem pressa, sem conclusão.
Só seguiu.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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