Por Que Deixei...

Aninha passava os dias se debatendo entre o que fez e o que deveria ter feito, entre o que disse e o que poderia ter dito. Havia manhãs inteiras em que ela amanhecia dentro desse labirinto — um corredor estreito onde as perguntas ecoavam mais alto que qualquer resposta.

O pior é que ela sabia: não existia resposta. Existia apenas o tempo.
Aquele tempo que ela achou, com a inocência dos que amam sem imaginar o fim, que sempre teria de sobra.

Durante tantos anos, eles deixaram momentos para depois. Pequenos: o café que podiam ter tomado devagar, a conversa que ficou para “quando der”, o toque que ela esqueceu porque estava cansada, a risada que ele segurou porque tinha pressa, o abraço que os dois acharam que poderiam dar no fim do dia — e o fim do dia veio, mas não o abraço.

Outros momentos eram grandes: viagens adiadas, segredos não contados, planos que ficaram pendurados no varal da vida, balançando ao vento, esperando uma coragem que não veio.
Por um motivo ou outro.
Ou por motivo nenhum.
Geralmente por preguiça, por rotina, por aquela certeza boba de que “amanhã a gente faz”.

E então ela se viu sozinha.
Sozinha da ausência dele e da presença de tudo aquilo que deixaram para depois.

No começo, Aninha tentou reorganizar o mundo. Guardou as roupas, arrumou o armário, mudou de lugar o porta-retratos porque a dor em cima da mesa parecia maior que ela. Mas não adiantou. Quando a casa dormia, ela acordava — e era lá, no silêncio, que a lista do que ficou por fazer escorria pelas paredes.

“Por que deixei…?”
A pergunta voltava toda noite, sempre com três pontinhos, porque nunca terminava.

Um dia, cansada de fugir de si mesma, Aninha abriu a caixa onde guardava as coisas mais simples dele: um bilhete amarelado, um chaveiro comprado na estrada, uma tampa de caneta que ele vivia perdendo, o ingresso dobrado do primeiro filme que viram juntos.
Coisas pequenas.
Coisas que não salvavam nada — mas lembravam tudo.

Foi ali, naquela bagunça de lembranças, que ela entendeu.

Ela não deixou porque não amava.
Ela não deixou porque era descuidada.
Ela deixou porque era humana.

E porque amar demais também dá medo.
Medo de perder.
Medo de faltar.
Medo de não ser suficiente.

O amor deles foi enorme, só que invisível nas coisas de todos os dias — e agora, na ausência dele, Aninha conseguia enxergar até o que não viveram.

Naquela noite, ela respirou fundo, encostou a testa na tampa da caixa e falou baixinho, não para pedir desculpas, mas para se perdoar:

— Eu deixei… porque achei que tinha tempo.

E talvez fosse esse o segredo que ela precisava aceitar para sobreviver ao luto:
no amor, assim como na vida, ninguém vive sabendo que o relógio está acabando.
A gente simplesmente ama do jeito que consegue.
Errado, imperfeito, distraído — mas ama.

E Aninha, ali no meio das lembranças, percebeu que mesmo deixando tanta coisa para depois, eles tinham vivido um amor inteiro.
O resto…
bem, o resto era só a dor dizendo que ele tinha sido real.

E que ela, ainda sem ele, continuava.

Continuava porque amar é assim:
se parte em dois — mas segue.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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