O Homem Que Dançava

A primeira vez que o vi ele dançava no Flon, numa tarde quente de verão.

Aquela luz forte que desce entre os prédios deixava tudo meio desbotado, menos ele.
Um homem pequeno, magro, barba por fazer, o rosto marcado de quem já viveu coisas difíceis demais para a idade que parecia ter.
Só mais tarde eu soube que ele era espanhol — algo no modo de mexer a boca já entregava um pouco do sotaque — mas naquele dia ele era só um corpo tentando se mover.

Ele mexia o pé devagar, como se estivesse testando o chão antes de confiar nele.
Depois soltava um ombro, depois o outro. Nada bonito. Nada planejado.
Era só um corpo tentando não endurecer.

Passei e achei curioso. Só isso. Nem parei.

Agora era inverno.
E o inverno em Lausanne não chega gritando — chega com uma delicadeza que engana.
O frio não ataca de uma vez; primeiro, toca.
A luz baixa encosta nos telhados e acende aquela coroa branca nos Alpes, como se alguém tivesse desenhado silêncio em cima deles.
As ruas ficam mais vazias.
O lago também.

O Léman, naquela tarde, parecia esquecido.
Nenhuma criança correndo, nenhuma roda de conversa, nenhum turista tirando foto.
A água estava parada, pesada, quase escura.
Olhei para ele e tive a impressão de que o lago também sentia falta de alguém — talvez da cidade, talvez do calor, talvez de nada.
Mas senti a mesma solidão nele que sentia no homem que dançava.

E lá estava ele.
De casaco velho, barba mais crescida, os ombros um pouco mais caídos.
A mesma expressão triste — aquela tristeza cansada, que não pede ajuda.
O mesmo corpo pequeno, discreto, tentando se mover contra o frio.
E quando disse uma frase curta, baixinha, percebi o rastro de espanhol escapando no final da palavra.

Ele mexia o pé.
Só isso.
Um gesto que no verão parecia simples… e que agora, com o vento cortando, parecia resistência.

Passei perto dele e perguntei:

— Hoje você vai dançar?

Ele levantou o rosto devagar.
Os olhos tinham aquela opacidade de quem passou a noite pensando demais.

— Tô tentando — disse.
O sotaque espanhol apareceu só no “tô”, como um fio de outro lugar.

O Léman atrás de nós parecia concordar.
Os Alpes lá longe brilhavam como se estivessem olhando de cima.

Ele fez outro movimento pequeno com o pé.
Depois mais um.
O casaco se mexeu leve, como se guardasse o resto de verão que ele tinha dentro.
E, por um instante curto, a dança voltou — pequena, fraca, mas voltou.

— Às vezes, é só isso que dá pra fazer — murmurou.

E continuou.
Devagar, discreto, como alguém que luta só com o que tem.

Eu segui meu caminho com a sensação de que o inverno não era tão duro assim.
Ou talvez fosse.
Mas havia um homem pequeno, espanhol, dançando ao lado de um lago que também parecia abandonado — e, de algum jeito estranho, isso deixava tudo mais humano.

 Silvia Marchiori Buss

 

 

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