Aquilo Que Caminhava Atrás

A tristeza parecia devorá-la viva.

Não de um jeito explosivo, desses que deixam os olhos vermelhos e o corpo trêmulo. Era uma devoração paciente, quase delicada, como se alguém mordesse por dentro as paredes do seu silêncio.

Ela seguia o dia com uma espécie de economia emocional: passos que não faziam barulho, palavras medidas como quem pesa moedas raras. A cidade a engolia num fluxo de ônibus, vitrines, buzinas e rostos rápidos, e ela deixava ser levada, porque resistir exigia uma força que não tinha mais.

Algumas pessoas notavam que havia algo errado. Outras preferiam não notar — como sempre.

Numa tarde de vento frio, enquanto esperava o semáforo abrir, sentiu uma mudança mínima no ar: não um frio, mas uma proximidade. Algo caminhava atrás dela.
O som era discreto, quase educado, como se pedisse licença para existir.

Ela não virou.
Virar seria admitir.

Seguiu em frente.
O som acompanhou.

Na vitrine de uma loja fechada, viu seu reflexo — e viu também outra coisa: uma deformação atrás de si, uma espécie de sombra que não obedecia à luz. Nada grotesco. Nada explícito. Apenas a sugestão de uma boca aberta, grande demais para estar ali, profunda demais para ser reflexo.

Ela manteve o passo.
O reflexo não mudou.
A boca seguia atrás.

Na esquina seguinte, parou como quem ajeita a bolsa.
O ar atrás dela permaneceu pesado, atento.

Então, num gesto quase involuntário, virou o rosto.
Não havia nada.

Mas o chão — o chão parecia mais escuro, como se alguém tivesse apagado a luz debaixo de seus pés.

Ela respirou fundo, atravessou a rua e entrou no ônibus que parou à sua frente. Sentou-se na janela.
O vidro devolveu sua imagem.
Atrás de si, nenhum vulto. Nenhuma boca.

Ainda assim, a sensação continuava: algo a seguira até ali, mas não subira.

Quando o ônibus iniciou o trajeto, ela percebeu um movimento rápido na calçada.
Algo, um borrão escuro, tentou acompanhar o veículo.
Por alguns metros, insistiu. Depois, começou a perder forma, como um desenho apagado com pano úmido. Por fim, dissolveu-se.

Ela encostou a testa no vidro. Não estava aliviada.
Também não estava com medo.
Apenas estranhamente vazia — como se alguém tivesse arrancado um móvel pesado de dentro dela e o silêncio do espaço recém-aberto produzisse uma espécie de eco.

A tristeza parecia devorá-la viva.
Parecia.
Agora, porém, havia outra coisa no ar. Não esperança, não paz — apenas um intervalo. Um intervalo que poderia se fechar a qualquer momento. Ou nunca mais.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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