"Amor, Meu Grande Amor"

O restaurante não tinha nome visível. Apenas uma porta vermelha que deixava escapar um fio de luz âmbar para a rua estreita. Ali dentro, o cheiro era uma mistura discreta de anis, vinho derramado e o perfume quase apagado das flores secas que alguém teimava em renovar.

Mara entrou primeiro. Olhou em volta como quem reconhece um lugar que nunca tinha frequentado. O teto baixo criava sombras que se moviam devagar, acompanhando o balanço das luminárias. Era difícil saber se aquilo era acolhedor ou levemente perigoso — talvez as duas coisas.

Edgar já estava sentado na mesa do fundo, perto de uma prateleira de vidro cheia de garrafas antigas que ninguém sabia se eram colecionáveis ou apenas esquecidas.

Quando ela se aproximou, ele fechou o livro que não estava lendo de verdade.

— Você veio mesmo — disse Edgar.
— Eu disse que viria.
— Eu sei. Mas entre dizer e vir… cabe meio mundo.

Ela tirou o casaco. Um aroma quase imperceptível de hortelã passou por ele, mais lembrança do que perfume.

— Pedi vinho pra nós dois. O mesmo de sempre.
— “De sempre” não existe mais, Edgar.
— Então bebemos por educação. — Ele ergueu a taça.

Mara olhou para a toalha branca que cobria a mesa deles. Tinha um minúsculo fio puxado, quase invisível. Passou o dedo como quem tenta desfazer um erro antigo.

— Tem uma coisa que preciso te perguntar — ela disse.
— Finalmente.
— Por que agora? Por que me chamar depois de tanto tempo?
— Porque certas perguntas só aparecem quando a gente acha que já acabou de pensar.
— E você acabou?
— Nunca. É isso que me irrita.

Um garçom passou com um prato fumegante que cheirava a pimenta tostada. Mara acompanhou a fumaça subindo, como se algo ali respondesse pela metade uma pergunta que ela nem tinha formulado.

— Eu sonhei contigo — ela disse, sem cerimônia.
— Eu também.
— No meu sonho você falava uma frase que nunca falaria acordado.
— Qual?
— “Cheguei tarde, mas cheguei inteiro.”
— É… realmente não sou eu acordado.

O riso que ela deu não era de alegria. Era de reconhecimento.

Eles beberam. Sem brindar.

O vinho tinha um sabor quase salgado, como se alguém tivesse deixado uma gota de mar ali.

Edgar inclinou-se para frente.

— Você está diferente.
— Todo mundo está.
— Não assim.
— Como?
— Como quem deu a volta no próprio coração e voltou pelo mesmo caminho.
— Isso soa bonito, mas não explica nada.
— Não era pra explicar. Só pra dizer que te enxergo.

Ela mexeu no cabelo, gesto antigo que ele conhecia bem.

— Eu não vim pra lembranças, Edgar.
— Nem eu.
— Então pra quê?
— Pra ver se ainda existe espaço entre nós. Não aquele espaço cheio de silêncio, mas o outro… o que respira.

Mara ficou um momento olhando para a prateleira de garrafas. Cada rótulo parecia ter envelhecido do próprio jeito, como pessoas.

— Edgar… e se não houver mais espaço nenhum?
— Então a gente come, conversa sobre o clima, paga a conta e sai por portas diferentes.
— E se houver?
— Aí complica.

Ela sorriu, pela primeira vez de verdade.

— Você ainda fala como quem está sempre dez passos atrás da própria coragem.
— E você ainda ouve como quem não acredita em metade, mas guarda tudo mesmo assim.

O garçom trouxe o prato deles: algo com alecrim, vapor, e um cheiro que lembrava casas antigas. Eles comeram devagar, como se mastigassem passado e presente ao mesmo tempo.

— Edgar…
— Hm?
— Você ainda me chamaria daquele jeito?
— Qual deles? Você tinha muitos.
— Aquele que ninguém ouvia.
— Amor, meu grande amor?
— Esse.

Ele deixou o talher cair no prato com um som seco.

Não respondeu. Mas também não desviou o olhar.

A cidade lá fora parecia ter baixado o volume. O mundo respirava menos.

Mara encostou a ponta dos dedos na mesa, perto da mão dele, sem tocar. Um centímetro de distância, talvez menos.
Aquela mínima distância que só quem já amou profundamente sabe medir.

— Não precisa dizer nada — ela disse.
— Não estou calado por falta de resposta.
— Eu sei.

O garçom trouxe a conta sem ser chamado, como se percebesse que ali havia uma conversa que não terminava com papel.

Mara pegou o casaco. Edgar permaneceu sentado, observando o copo, a cadeira, o espaço que ela ocupava.

— A gente se vê? — ela perguntou na porta.
— Se o acaso colaborar.
— E se não colaborar?
— Então veremos o que sobra do acaso.

Ela balançou a cabeça, como quem compreende algo que não foi dito.

A porta vermelha se fechou atrás dela.

O restaurante ficou com o cheiro dela. Não de perfume — de presença.

E Edgar ficou ali, entre garrafas antigas, tentando entender se aquele encontro tinha sido início, retorno ou apenas uma dobra do tempo onde dois nomes ainda se reconheciam.

Sem conclusão.
Sem moral.
Apenas vivo.

 Silvia Marchiori Buss

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