A Cidade dos Bichos Despertos...História Infanto Juvenil

CAPÍTULO 1 – A NOITE DA VIRADA

 A tempestade veio como um aviso. Não daqueles que os humanos escutam — porque estavam ocupados demais discutindo, correndo, acumulando coisas que não precisavam. Quem ouviu o aviso foram os animais.

A terra vibrou sob as patas das capivaras. Os pássaros bateram as asas inquietos no escuro. Os gatos olharam para um ponto invisível no ar, como se enxergassem um futuro torcido. E os cães uivaram — não por medo, mas por pressentimento.

Naquela madrugada, o universo tomou sua decisão.

Quando Vila Mansa amanheceu, seres humanos estavam trancados dentro de jaulas de cipó. Não era vingança: era contenção. O universo sabia que, soltos, eles reagiriam mal ao que viria. E o que viria seria grande.

No centro da praça, os animais se reuniram. Cada espécie mandou seu representante. Era uma assembleia inédita.

O pardal pequeno foi o primeiro a falar:

— Eles estragaram tudo. As árvores morrem sem aviso. Os rios não respiram. As luzes nunca dormem.

A raposa concordou, andando em círculos:

— Os humanos esqueceram que este mundo não é feito só para eles.

Um silêncio respeitoso tomou o grupo. Então, avançou Dona Jurema, a capivara velha, sábia, com olhos que pareciam ter atravessado séculos.

— Não se trata só do estrago, disse ela. Trata-se do desequilíbrio. Precisamos mostrar outra maneira de viver. Ou eles… ou nós… não sobrará espaço para todos.

O cachorro Bóris levantou a pata, nervoso:

— E se eles ficarem com raiva? Eles sempre ficam.

Por isso estão em jaulas temporárias — explicou Dona Jurema. — Precisamos de três dias. Três dias para reconstruir o que eles quebraram por anos.

Os animais se entreolharam.

Seria arriscado. Seria ousado.
Mas era preciso.

A revolução silenciosa dos bichos começava ali.

 

 CAPÍTULO 2 – O PRIMEIRO DIA: RECONHECER OS ESTRAGOS

 

O sol mal tinha subido quando as equipes foram formadas.

Os cães foram encarregados de abrir caminhos, farejando onde o solo estava doente, onde a água estava contaminada.

Os gatos seriam os registradores — anotavam tudo, observavam sem piedade, inclusive os humanos desconcertados dentro dos viveiros.

As aves cuidariam das comunicações, sobrevoando a cidade como mensageiras.

Os insetos fariam a limpeza profunda, devolvendo vida ao que parecia perdido.

Mas o mais importante era que todas as espécies trabalhariam juntas.
Coisa que, curiosamente, os humanos sempre tiveram dificuldade de fazer.

Bóris, o cachorro, caminhava ao lado de Lúcia, a gata siamesa. Os dois se detestavam até anteontem — agora, estavam lado a lado.

— Nunca pensei que ia trabalhar com você, rosnou Bóris.

— É. O mundo realmente acabou, respondeu Lúcia, sem encarar.
Mas depois completou, baixinho:
— Pelo menos vai ser interessante.

Foram até o rio. Ou o que restava dele.

Água turva, cheiro estranho, peixes rareando.

Um peixe velho, chamado Cinturão, emergiu cansado:

— Vocês demoraram. A água está sufocada. Os humanos jogaram tudo aqui: restos, óleos, sujeiras que nem sei nomear.

— Vamos abrir espaço, disse Bóris.
Lúcia anotava:
Nível de toxinas: alto. Nível de esperança: moderado.

A lontra Estela aproximou-se:

— Se vocês não ajudarem, perdemos o rio até amanhã. E sem rio… nada vive.

Bóris olhou a paisagem com tristeza:

— Eles fizeram isso tudo sozinhos?

Lúcia, séria:
— Com pressa, com arrogância e com distração. A pior mistura possível.

Enquanto isso, as cabras encontravam morros desmatados, os tatus achavam lixo enterrado, as abelhas choravam ao ver jardins cimentados.

A assembleia daquela tarde foi pesada.

— O estrago é profundo — relatou o tatu.
— Mas não impossível, disse a lontra.
— Temos pouco tempo, avisaram as araras.

Dona Jurema ouviu tudo com calma.

— Então vamos ao segundo passo, declarou.
— Ensinar. Eles vão aprender vendo.

 

 CAPÍTULO 3 – O SEGUNDO DIA: A JUSTIÇA DOS BICHOS

 

 Os humanos, trancados, estavam furiosos.

Gritavam, sacudiam os cipós, exigiam explicações. A maioria não aceitava ser controlada por criaturas que consideravam “inferiores”.

Mas, naquela manhã, algo novo aconteceu.

Cinco animais entraram juntos no maior viveiro da cidade.
Era um conselho. Um tribunal. Uma visita necessária.

O humano lá dentro era o senhor Adalberto, conhecido por:

·        deixar o carro ligado por longos minutos para “aquecer”,

·        jogar lixo no terreno baldio,

·        espantar gatos com vassoura,

·        e reclamar de pássaros que cantavam fora de hora.

O coelho Tito tomou a palavra primeiro:

— Bom dia, humano. Temos perguntas.

Adalberto arregalou os olhos:

— Eu… eu estou ficando louco?

A coruja Celina ajeitou as penas:

— Não. Só está sendo ouvido, pela primeira vez.

A raposa Yara se aproximou:

— Por que você joga lixo onde vivemos?

Adalberto suou:

— Não sabia que… que afetava tanto…

O cachorro Bóris latiu:

— Não sabia? Ou não ligava?

Silêncio.

A coruja fixou os olhos profundos no homem:

— Vocês, humanos, sempre dizem que têm consciência. Mas consciência sem responsabilidade é só vaidade.

— O que vocês querem de mim? — perguntou Adalberto, tremendo.

Dona Jurema respondeu por todos, de fora do viveiro:

— Queremos que entenda. E que mude. É simples assim.
— E se eu não mudar?
Então o universo escolherá outra espécie para continuar a história.

Mais tarde, outros viveiros foram visitados.
Outros humanos foram confrontados.
Outros diálogos aconteceram, alguns duros, alguns emocionantes.

E, pela primeira vez, os humanos perceberam que falar não adiantava.
Agora, precisavam escutar.

 

 CAPÍTULO 4 – O TERCEIRO DIA: A RECONSTRUÇÃO

 

 Os animais começaram cedo. Não havia tempo para hesitar.

As abelhas lideravam o plantio: pousavam em cada canto seco da cidade, indicando onde flores deveriam voltar.

— Aqui! Aqui também! Este solo ainda respira! — gritava uma das operárias, rodopiando no ar.

Os pássaros traziam sementes de longe, esquecidas em ninhos antigos. As corujas coordenavam a sombra das árvores recém podadas. Os tatus cavavam túneis para rearejar a terra compactada pelo cimento.

No alto de um poste, Lúcia, a gata siamesa, ditava anotações para o esquilo Juca:

“O Parque Central volta a ter borboletas. O rio reduz o cheiro ácido. Três árvores renascem.”
— Escreveu?
— Escrevi! — respondeu Juca, com a caligrafia mais torta do reino animal.

Bóris veio correndo:

— Temos problema no rio de novo. A água não circula. Precisamos de força.

Os castores, atentos, apareceram como soldados:

— Deixem conosco. O problema é a barragem de lixo dos humanos. Vamos desmontar.

E trabalharam com os dentes, derrubando garrafas, embalagens, plásticos, tudo que o homem chamava de “descartável”.

A lontra Estela chorou discretamente:

— Lixo… isso não deveria existir no nosso mundo.

Bóris lambeu sua cabeça:

— Vamos cuidar. Ainda dá tempo.

Enquanto isso, outros animais visitavam novamente os viveiros.

A menina Clara, de oito anos, recebeu a visita de uma tartaruga centenária:

— Vocês cresceram tão rápido que esqueceram de olhar para baixo. Para o chão que os sustenta.
— Eu não sabia… — sussurrou Clara.
— Agora sabe. E vai ser sua missão lembrar aos grandes.

A reconstrução avançou assim, com mãos, garras, asas e patas.
E uma certeza crescente: os humanos só teriam futuro se aprendessem a reparar o que destruíam.

 

 CAPÍTULO 5 – A REVOLTA DE ALGUNS HUMANOS

 

 No segundo viveiro da Rua das Palmeiras, um grupo estava inquieto.

O chefe deles, o empresário Horácio, não aceitava nada do que estava acontecendo.

— Isso é absurdo! Somos superiores! Quem são esses bichos para nos julgar?

Ao seu redor, quatro homens e duas mulheres balançavam a cabeça em concordância.

— Eles não têm direito nenhum! — gritou uma das mulheres, sacudindo os cipós.

Mas os cipós vivos apenas se apertaram um pouco, como se pedissem respeito.

Horácio cuspiu no chão:

— Eu sou dono de três fábricas! Eu mando na metade dessa cidade!

Foi então que um urso enorme — chamado Montanha — entrou no viveiro, abrindo espaço com sua presença.

A voz dele saiu como um trovão suave:

— Você não manda nem no próprio impulso de raiva. E quer mandar no mundo?

Horácio perdeu a cor.

O urso continuou:

— Vocês dizem ser superiores. Mas superioridade não faz barulho. Faz exemplo. Faz cuidado. Faz futuro. Isso vocês esqueceram.

A mulher gritou:

— Vai nos matar?

Montanha suspirou:

— Não. Não somos como vocês. Só queremos que enxerguem o estrago que fizeram antes que ele nos engula a todos.

Mas, quando saiu, ouviu Horácio sussurrar:

— Não vou aceitar isso.
— Nem eu — disse outro humano.

E assim começou a primeira faísca.

 

 CAPÍTULO 6 – O JULGAMENTO FINAL

 

Na tarde do terceiro dia, os animais se reuniram na maior assembleia já vista. Não cabiam todos na praça: havia animais nos telhados, nas árvores, no campanário da igreja, até nas varandas dos viveiros.

Dona Jurema, a capivara, subiu ao centro.

— Chegou a hora. Vamos apresentar aos humanos o veredito da Terra.

Os viveiros se abriram parcialmente — só o suficiente para que os humanos saíssem e ficassem sentados, sob supervisão de cães e búfalos.

No palco improvisado, cada espécie falou:

As abelhas:

— Vocês nos ignoraram até perceberem que sem nós não tinham comida.

Os pássaros:

— Vocês roubaram o céu com barulhos e luzes que confundem nossas rotas.

Os peixes:

— Vocês transformaram rios em depósitos da própria preguiça.

Os cães:

— Nós sempre estivemos ao lado de vocês. Mesmo assim, muitos de vocês escolheram a crueldade.

A cada fala, episódios eram mostrados: queimadas, poluição, abandono, desmatamento, gritos, silêncios, displicências.

Clara, a menina, chorava.
Horácio, ao contrário, não cedia. Rangia os dentes.

Dona Jurema, então, deu seu parecer:

— Os humanos não serão exterminados. Nem expulsos. O universo não trabalha com vingança, mas com equilíbrio.
— Então o que acontecerá? — perguntou um dos cidadãos.

A capivara respirou fundo:

— Vocês terão uma escolha.
— Qual?
— Aprender. Ou repetir. Se repetirem… a Terra dará outro jeito de se defender. E não será com palavras.

Um arrepio percorreu a praça.
Até Horácio engoliu seco.

 

CAPÍTULO 7 – O DIA DA LIBERTAÇÃO

 

No amanhecer seguinte, todas as jaulas de cipó se desfizeram em flores.
Os humanos estavam livres.

Os animais, organizados em fileiras, observavam a reação.

Alguns humanos choraram. Outros agradeceram. Outros ficaram tão envergonhados que encararam o chão.

Você sabe quem não mudou nada?

Horácio.

Ele saiu caminhando com o peito estufado e murmurando:

— Ninguém manda em mim. Ninguém.

Mas, ao sair pelo portão da cidade, foi surpreendido por uma revoada de pássaros que bloqueou seu caminho.
Ele tropeçou, caiu, e sentiu algo estranho: um cipó brotando do solo, enrolando firme em seu tornozelo.

Dona Jurema apareceu atrás dele:

— A liberdade vale para quem sabe usá-la. Você ainda não sabe.

Horácio foi deixado ali, preso por uma única volta de cipó — não era uma punição, era um aviso do universo: certas pessoas precisam começar do básico.

Os demais humanos foram liberados entre os animais.

Clara correu até a tartaruga, abraçando-a.

— Eu vou lembrar, prometo.

A tartaruga sorriu:

— Lembre sempre. E fale aos adultos. Alguns esquecem fácil.

Os animais começaram a se dispersar, voltando para seus lugares, mas deixando claro que não eram mais invisíveis.

O mundo tinha mudado.

Mas ainda não estava garantido.

 

EPÍLOGO – O NOVO ACORDO

 

Vila Mansa voltou ao normal — pelo menos parecia.

As escolas incluíram “Relações Entre Espécies” como matéria obrigatória.
O rio voltou a respirar lentamente.
As praças floresceram.
E Clara cresceu, lembrando cada palavra da tartaruga.

Os animais? Continuaram atentos.

Todas as noites, uma coruja sobrevoava a cidade, anotando o que precisava melhorar.

Todos os dias, os cães patrulhavam silenciosamente as ruas, não como guardiões dos humanos, mas como guardiões da convivência.

E quando alguém perguntava:

— Quem manda agora?

Os bichos sempre respondiam:

— Ninguém manda. A vida manda.

Um acordo novo havia sido firmado.
Não escrito em papel, nem decretado em lei.
Escrito na terra, na água, no ar, nos olhos dos que finalmente aprenderam.

Porque o universo só precisava de uma cidade para recomeçar.

E essa pequena cidade aceitou a lição.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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