Sonhos Empacotados
Naquela manhã de setembro — uma manhã que deveria ser comum, deixar o dia seguir seu rumo — ela acordou antes do sol. O céu ainda era um cinza difuso, daqueles que parecem decidir devagar se cedem ou não ao dia. Ela, que sempre confiara na teimosia da luz, abriu a janela esperando que o sol insistisse, como sempre fazia.
Mas o sol não veio.
E foi ali, nesse intervalo entre noite e dia, que ela percebeu: ele tinha
partido. E algo dentro dela — um lugar que ela nem sabia nomear —
silenciosamente partiu junto.
Durante muitos anos, ela
tinha sido uma jovem em relação aos sonhos. Não à idade, mas ao fôlego. Vibrava
como quem ainda tem toda a vida se abrindo à frente. Alegre por pequenas
vitórias:
— quando terminava um livro que a deixava diferente do que era antes;
— quando acertava os temperos do almoço;
— quando ouvia o barulho do correio e imaginava boas notícias;
— quando o time ganhava na prorrogação e ela gritava feito menina;
— quando achava um vestido antigo no fundo do armário e ria sozinha do passado;
— quando a neta dizia “vó”, esticando as vogais.
Ela sonhava com viagens
curtas, com cafés demorados, com aprender uma língua nova, com ver o mar mais
uma vez, com plantar um limoeiro. Sonhava até com coisas quase bobas — um
filhote de cachorro, um bom filme, um caderno novo.
Os sonhos eram seus pequenos combustíveis.
E ela sabia acendê-los com uma facilidade que hoje lhe parecia milagrosa.
Naquela manhã, porém, ela
pegou uma caixa vazia. Não sabia por quê. Só pegou.
E começou a guardar dentro dela seus sonhos.
Primeiro o mais frágil: o de viajar com ele de novo, mesmo que só até a cidade
vizinha.
Depois o de ficarem velhinhos, juntos, reclamando de dores iguais e rindo das
mesmas tolices.
Guardou também o sonho de um jantar de aniversário que nunca aconteceria, o de
uma fotografia que eles não fariam na próxima primavera, o de assistir a um
filme de mãos dadas como faziam havia décadas.
Cada sonho ia para a caixa
com um cuidado quase ritual: embrulhado em silêncio, amarrado com saudade.
Outras caixas se seguiram.
Uma para os sonhos pequenos.
Outra para os sonhos que ela fingia não doerem.
Outra para aqueles que se partiam sempre que ela dizia o nome dele.
O tempo passou, e as caixas
viraram uma espécie de país dentro da casa: empilhadas nos cantos, respirando
junto com ela.
Mas ela não desistiu.
Todos os dias — mesmo nos mais pesados, mesmo nos mais vazios — ela tentava
desembrulhar um sonho. Abria devagar, como quem abre uma carta antiga com medo
de rasgar o papel.
Alguns ela conseguia tocar:
— relia um trecho de um livro e lembrava como ele ria das personagens;
— preparava o almoço com o tempero que ele gostava;
— ia até a rua e sentia o vento, como ele dizia para fazer “quando a cabeça
apertasse”.
Outros sonhos, porém,
tremiam nas mãos dela.
O coração batia descompassado demais.
As lembranças vinham num golpe.
E então ela fechava a caixa novamente.
Não por desistência.
Mas por amor — porque alguns sonhos ainda doíam mais do que ela podia suportar
sozinha.
Mesmo assim, sempre havia
um sonho insistindo, pedindo para respirar.
O sonho de seguir.
De viver o que restava — não apesar dele, mas por causa dele.
De manter acesa a parte dela que nunca deixou de vibrar com as coisas simples.
E é esse sonho — o mais
teimoso de todos — que ela tenta desembrulhar toda manhã.
Com mãos que tremem, sim.
E com um coração cansado, é verdade.
Mas ainda vivo. Porque alguns sonhos não se deixam empacotar...
Silvia Marchiori Buss
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