Ela Fala, Ele Fala, O Silêncio Fala

 

1 - COPO DE CRISTAL... ela fala

 A primeira coisa que ela ouviu foi o som — um tilintar curto, quase imperceptível, vindo de dentro da casa vazia. Não era vento, nem madeira, nem aqueles estalos que anunciam o fim do dia. Era um som delicadíssimo, como unha batendo contra cristal para dizer: aqui ainda existe algo.

Ela seguiu o som com passos cuidadosos. Já não esperava que nada, absolutamente nada, tivesse força para surpreendê-la naquele território onde cada objeto carregava a respiração dele. Mas o ruído veio de novo — leve, insistente, quase um chamado.

Sobre a mesa onde ninguém tocava há meses, estava o copo.

Não lembrava de tê-lo deixado ali.
Não lembrava sequer de ele existir.

O curioso é que o cristal não brilhava como um copo qualquer. Tinha uma claridade própria, uma pequena chama imóvel. Um desperto.

Aproximou-se devagar.
O copo não se moveu, claro.
Mas o ar ao redor parecia ligeiramente mais morno — a mesma sensação de quando ele pousava a mão nas suas costas, em silêncio, só para avisar que estava ali.

Ela não tocou de imediato.
Primeiro, sentiu.

E sentiu, com a nitidez de quem reconhece uma carta sem assinante:
aquele objeto não estava ali por acaso.

 

Na manhã seguinte, o copo continuava na mesa. Quieto.
Mas carregando algo que ela não sabia nomear.

Decidiu usá-lo.

Encheu-o de água e levantou o cristal contra a luz da janela. Só então viu uma rachadura finíssima, quase desenhada, serpenteando uma curva irregular, como uma letra que ela não sabia ler.

Passou a ponta do dedo.
O cristal era frio.

Bebeu.
E o gole abriu, dentro do peito, um corredor estreito — um lugar onde a saudade respirava sem ser enxotada.

Sentou-se.
Esperou.
Nada aconteceu.
Ou aconteceu: ela não estava tão sozinha quanto parecia.

 

À noite, encheu o copo com vinho.
Vermelho profundo.

Sentou-se na varanda, enquanto a cidade recolhia suas luzes. A rachadura, agora iluminada pela lua, parecia maior. Mais presente.

Tomou um gole e sentiu algo quente percorrer um espaço que estava adormecido.
Lembrou-se de como ele dizia que o vinho noturno era o jeito mais simples de conversar com o que não se vê.

Sorriu — um sorriso triste, gasto, mas verdadeiro.

E jurou perceber um minúsculo lampejo dentro do cristal.

 

No terceiro dia, enquanto lavava a louça, o copo escorregou das mãos.

Ela parou de respirar.

O cristal bateu na pia com um som seco, quase um lamento, mas permaneceu inteiro.

Mais rachado, porém.

Agora a linha atravessava metade do copo — como uma cicatriz que finalmente decide aparecer.

Ela segurou o copo como quem segura algo vivo.

— Se tiver que quebrar… quebre devagar — murmurou. — Eu também estou tentando aprender.

 

O ritual nasceu sozinho.

Pela manhã, água.
À tarde, o copo descansando sobre a mesa.
À noite, o diálogo silencioso com o vinho.

A rachadura avançava milímetros, acompanhando seus dias, seus pequenos progressos, seus retrocessos de madrugada.
O copo não cobrava nada.
Apenas existia. Existir, para ela, já era companhia.

 

 

Até que, numa tarde absurdamente azul, ela percebeu — sem querer — que o ciclo tinha encerrado.

Pegou o copo.
Serviu água uma última vez.
A rachadura atravessava agora todo o cristal, como uma linha que sustenta o desenho inteiro antes de se desfazer.

Ergueu o copo.

— Obrigada — disse. — Por ficar comigo quando eu não conseguia ficar comigo mesma.

O cristal vibrou na mão dela.
Um instante.
Depois, cedeu.

Não explodiu.
Não estilhaçou em mil fragmentos.

Abriu-se em três partes limpas, suaves, quase gentis.
Como algo que entende que já cumpriu seu papel.

Ela não chorou.

Apenas recolheu os pedaços e os colocou sobre um pano dobrado, como quem acomoda uma memória no lugar certo.

Não era um fim.
Era só outro começo.

 

Os três pedaços ficaram sobre a mesa nos dias seguintes.
Sem arranjo.
Sem simbolismo.
Apenas ali — presentes, estáveis, silenciosos.

E foi numa tarde banal, enquanto lavava uma xícara, que ela percebeu algo novo dentro de si. Não era alívio. Nem esperança. Nem esquecimento.

Era um descanso — pequeno, discreto, sem anunciar nada.

Um ponto de apoio por dentro.

Ela olhou para os fragmentos sobre a mesa.

O cristal refletia a luz da janela em três direções diferentes, como se cada pedaço guardasse uma parte da história, mas nenhuma cobrasse uma continuação.

Aproximou-se.
Passou o dedo pela borda de um dos fragmentos.
Sorriu — um sorriso curto, mas com chão.

Não era consolo.
Não era cura.

Era só isso um jeito novo de existir.

 

 

2 - ESPELHO DE LUZ .... ele fala

 

Ele nunca entendeu de que matéria era feito o silêncio dela.

Quando vivia, acreditava que era timidez, cuidado, talvez cansaço.
Depois, já do lado onde as palavras não chegam, percebeu: o silêncio dela era linguagem.
Era o modo mais sincero que tinha de sentir o mundo.

No começo, tentou chamá-la.
Não com voz — isso ele havia perdido.
Tentou chamá-la com memória.

Empurrou lembranças leves:
o cheiro do café, a dobra específica da toalha, a forma como ela prendia o cabelo antes de dizer algo difícil.
Mas nada chegava nela de um jeito que ele pudesse medir.

Até que uma tarde encontrou um objeto que tinha ficado de pé no meio do luto: o copo.

Um copo de cristal comum para qualquer olhar distraído.
Para ele, não.

Ele sabia que era a única coisa que ela tocava sempre com as duas mãos.

Sabia também que não havia mais muito que pudesse fazer — ali, naquele espaço onde os vivos e os mortos são vizinhos, mas não conversam.
Mas, se pudesse encostar na superfície do mundo por um segundo, seria através do cristal.
Porque o cristal, diferente deles dois, entendia a linguagem da luz.

E era isso que ele tinha restado para oferecer.

 

Primeiro, fez vibrar o ar ao redor.
Um sinal mínimo, uma unha batendo contra vidro.
Quase nada.

Mas ela ouviu.

Viu quando parou no meio do corredor, como quem reconhece o próprio nome dito ao longe.
Viu quando encontrou o copo na mesa.
Viu o susto manso que iluminou os olhos dela.

Não podia falar.
Não podia aparecer.
Mas podia acompanhar.

E acompanhou.

A água da manhã, o vinho da noite, a fadiga dos dias que pesavam, o respirar lento, o modo como ela segurava o copo como quem segura um fio que não quer perder.

Ele viu a saudade dela crescer como um animal manso, que só ruge quando ninguém está olhando.

E viu também outra coisa:
que, apesar da dor, ela ainda tinha dentro do peito um lugar que respondia à vida.

 

A rachadura não foi acidente.
Não foi aviso.
Não foi metáfora.

Foi passagem.

O cristal, sensível demais para suportar coisas não ditas, começou a se abrir por dentro.
Como ele.

A cada dia, um milímetro cedido.
A cada noite, uma delicadeza a menos para sustentar.
Não era destruição — era entrega.

E ele sabia exatamente o que estava acontecendo:
ela estava voltando para si.

Não totalmente.
Nunca totalmente.
Mas o suficiente para que a ausência dele deixasse de devorar seus gestos.

Então, ele fez a última coisa que podia fazer por ela:
deixou o copo partir.

Não era despedida.
Era respeito.

 

Ela recolheu os pedaços com uma ternura que doeu até no lado onde ele estava.

Mas foi quando ela passou a usá-los não  como simbolismo, não como altar, mas como parte do cotidiano — espalhados sobre a mesa, à vista, sem cerimônia — que ele enfim entendeu:

ela não precisava mais dele como ruído, como sinal, como rachadura.
Precisava dele como lembrança que não pesa.

E assim ele ficou: presença leve, quase poeira de luz.
Um reflexo que não exige ritual para existir.

Um reflexo que ela nem percebe sempre.

Mas que está ali.
Sempre que o sol atravessa a janela e toca um dos fragmentos, desenhando no chão uma pequena linha de luz — tão pequena que só os mortos reconhecem.

Ele sorri quando acontece.
Não porque ela o vê.
Mas porque ela segue.

E seguir, para ele, sempre foi a forma mais bonita de ficar.

 

 

3 - VOZ DO SILÊNCIO - Nem dela, nem dele... a voz daquilo que fica

 

 O silêncio não escolhe lados.

Não é de quem fica, nem de quem parte.
Não pertence ao amor, nem à ausência.
Ele apenas se molda no espaço que sobra entre os dois.

E foi ali, exatamente ali, naquele espaço impossível, que ele começou a respirar.

No primeiro dia após a morte dele, o silêncio foi bruto: um corpo pesado sentado no sofá ao lado dela, exigindo que cada gesto fosse feito com cuidado.
No segundo dia, tornou-se muro: fechou portas, apagou luzes, apertou o ar.
Mas, com o tempo — e o tempo é paciente quando ninguém está olhando — o silêncio mudou de natureza.

Ficou mais leve.
Depois, curioso.
Por fim, presente.

Foi o silêncio que percebeu antes de qualquer pessoa quando ela tocou o copo de cristal pela primeira vez.
Foi ele que ouviu o som que ela ouviu.
Foi ele que carregou o arrepio até a nuca dela.
Ele — o silêncio — é que fez a ponte entre o mundo dos vivos e o dos que não têm mais corpo.

Porque o silêncio sempre sabe das coisas antes das pessoas.

 

O silêncio viu quando a água desceu pela garganta dela como um fio de luz.
Viu quando o vinho devolveu cor às horas.
Viu a rachadura nascer, crescer, se afirmar.

Viu que, no fundo, o cristal não estava se partindo.
Ela é que estava se abrindo.

Foi o silêncio que sustentou o instante em que o copo caiu na pia e não quebrou.
Foi ele que ouviu a frase que ela disse — “se tiver que quebrar, quebra devagar” — e a guardou no único lugar que não se perde: o intervalo entre uma dor e outra.

O silêncio é o único que entende que as pessoas sofrem por partes.

 

Quando o copo enfim se abriu em três pedaços, o silêncio não celebrou, não lamentou.
Só recolheu o som.
Som nenhum pertence ao silêncio, mas todos passam por ele antes de desaparecer.

Ele acompanhou os fragmentos na mesa.
Acompanhou os dias em que ela não sabia o que fazer com eles.
Acompanhou a falta dele que ainda latejava, mesmo depois de meses.

Mas acompanhou, sobretudo, o instante em que algo dentro dela encontrou uma posição que doía menos.

O silêncio é o primeiro a perceber quando uma pessoa aprende a respirar de novo.

 

E foi o silêncio que entendeu, antes dela mesma, que ele — o homem — continuava ali, mas de outro jeito.
Não como ruído.
Não como lembrança insistente.
Não como sombra.

Como luz.
Como reflexo mínimo.
Como presença que não precisa ser vista para existir.

O silêncio é fluente na língua dos que ficam e dos que partem.

 

Hoje, quando ela passa os dedos pelos fragmentos do copo sobre a mesa, não procura mensagem, sinal, fenômeno.
Procura nada.

E é por isso que encontra tanto.

O silêncio se deita entre os pedaços de cristal como quem se estende num campo aberto.
Ele sabe que dali não nasce um retorno, nem um fim.
Nasce apenas o que sempre nasce quando a dor encontra um lugar para descansar:

um modo possível de seguir.

Não com alívio.
Nem com esquecimento.
Mas com espaço.

E o silêncio — que nunca foi inimigo — sorri.

Porque, finalmente, ele pode ser o que sempre quis ser para ela:

casa sem paredes,
janela sem vidros,
companheiro sem voz.

Um lugar onde a ausência deixa de morder
e passa apenas a respirar.

 

 Silvia Marchiori Buss

Silvia Marchiori Buss

 

 

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