Quem Está Emprestando os Olhos Pra Você Ver...

Qualquer um de nós, amor.

Tua filha, teu filho, ou o nosso caçula...ou eu.

Tua ausência física é um silêncio enorme, desses que ecoam.
Faz falta o teu corpo aqui — teus passos no corredor, tua respiração à noite, teu riso escapando quando tentavas disfarçar.
Faz falta o gesto simples de tu chegares na porta e perguntares como foi o dia.
Faz falta tua mão quente segurando a nossa, tua voz rouca que sempre sabia a hora certa de falar… ou de ficar quieta.

Mas, mesmo com esse vazio tão vivo, somos um pouco de ti todos os dias.

As paisagens que estamos vendo — são do teu agrado?
Tua filha te empresta os olhos dela quando vê o pôr do sol se deitando nos Alpes coroados de neve.
Ali, naquele brilho prateado que sempre te comovia, ela sente teu espanto antigo, teu jeito de olhar para o horizonte como quem procura sentido.

Teu filho, parceiro e colega de vida e profissão, te empresta os olhos quando observa os animais da fazenda, a terra que tu amaste e nunca abandonaste por dentro.
Ele vê por ti.
E, quando toma uma decisão difícil, pensa como tu pensarias — porque a tua ausência física dói, mas tua presença moral ainda orienta.

Teu filho caçula te empresta os olhos quando vê a roda-gigante da janela do nosso apartamento — aquele onde fomos tão felizes.
Cada luz girando é uma memória tua.
Cada volta completa é teu jeito de dizer que o tempo continua, mesmo quando a gente acha que não.

E eu…
Eu te empresto meus olhos todas as manhãs e todas as noites.
Quando acordo sozinha na cama enorme.
Quando preparo o café que tu gostavas.
Quando caminho pelas ruas e penso: ele teria amado ver isso.
Eu te empresto meus olhos quando rio e quando choro, quando escrevo e quando silencio.
Porque a tua falta é permanente — mas tua presença também.

Todos os lugares do mundo são dignos de emprestar nossos olhos para que você veja.
E nós emprestamos.
Todos os dias.
Sem falhar.

Porque, mesmo sem teu corpo aqui, nós te carregamos no jeito de olhar, de sentir, de amar.
Somos teus olhos.
Somos tua continuação.
Somos você.

E, de algum modo que não sabemos explicar, você ainda olha com a gente.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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