A Mosca na Sopa

 A mosca caiu na sopa antes mesmo de alguém se dar conta de que havia sopa.

Era uma mesa ajeitada às pressas, dessas que parecem alegres por obrigação: flores cansadas num copo de requeijão, talheres ligeiramente tortos, guardanapos de papel fingindo elegância. O jantar era para celebrar uma dessas pequenas vitórias que ninguém sabe exatamente se deve comemorar ou esconder — mas, como toda família precisa de um pretexto para sentar junto de vez em quando, inventou-se a sopa.

E lá estava ela: uma tigela funda, fumegante, quase respeitável… até a mosca pousar. Pequena, insolente, dona de si. Flutuando com a calma de quem entende mais da vida do que os humanos à mesa.

Quem percebeu primeiro foi Júlia, a filha do meio, especialista em detectar falhas antes dos outros. Ela arqueou a sobrancelha — sua forma educada de dizer “eu sabia que isso ia acontecer”.

— Tem uma mosca — anunciou, sem drama, como quem comenta a previsão do tempo.

O pai, recém divorciado e ainda tentando provar que “está tudo bem”, deu de ombros.
— Faz bem...é proteína — disse, rindo, mas ninguém achou engraçado. Nem ele.

A mãe suspirou, o suspiro treinado de anos. Era um suspiro que queria dizer muitos parágrafos, mas ela já tinha aprendido a reduzir a vida a frases curtas.
— Tira a mosca, pronto.

Mas ninguém tirou.

Talvez porque, naquele instante, todos entenderam que a mosca não era a culpada. A mosca era apenas o detalhe que revela o que ninguém quer admitir: a sopa sempre esteve morna demais, a mesa sempre um pouco murcha, os convites sempre ligeiramente forçados. A mosca era só a metáfora visível do que boiava ali há anos.

Foi o caçula, Lucas, quem disse o que nenhum adulto ousaria:
— Acho que a sopa estragou antes da mosca cair.

Silêncio.

A frase pousou sobre a mesa como outra mosca, maior que a primeira, dessas que ninguém consegue ignorar.

A mãe pigarreou. O pai mexeu no celular. Júlia ajeitou as mangas, como se reorganizando o mundo do lado de fora fosse suficiente para evitar o que estava acontecendo dentro.

E a mosca lá, contemplativa, serena, flutuando no caldo que já ninguém queria.

No fim, ninguém comeu a sopa.
Ninguém discutiu a mosca.
Ninguém falou sobre o que, de fato, estava azedo.

Recolheram os pratos em silêncio, cada um encontrando uma desculpa qualquer para se levantar primeiro: uma mensagem, uma dor de cabeça, um compromisso improvável.

A mosca permaneceu na tigela, triunfante, como quem encerra o jantar com a única verdade possível:

não foi ela que estragou nada — ela só tornou impossível fingir que estava tudo no ponto.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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