A Menina da Echarpe Vermelha
A echarpe vermelha apareceu antes dela — um rasgo de cor atravessando a calçada pálida, balançando no vento leve, como se anunciasse alguém que não queria ser anunciada.
Ela veio logo atrás: casaco claro, saia azul simples, cabelo preso às pressas.
Nada nela chamava atenção além daquele tecido vermelho, fino, gasto nas bordas,
que parecia pertencer a uma vida ligeiramente mais ousada do que a que ela
carregava no rosto.
Sentou-se no banco da
parada de ônibus como quem tenta fazer as pazes com o próprio corpo antes de
qualquer decisão. Ajustou a barra da saia, cruzou as mãos, puxou a echarpe para
frente — talvez para se proteger, talvez para se esconder.
A cidade passava por ela
sem registrar nada. Era uma tarde comum, de rotinas repetidas, de gente
caminhando depressa sem olhar para os lados. Ainda assim, ela mantinha a
postura de quem espera ser vista — não por todos, mas por alguém específico,
duas ruas adiante e alguns meses depois da última tentativa.
Dentro da cabeça dela, duas
palavras se acumulavam desde cedo, insistentes demais para caber no peito:
“Eu voltei.”
Era isso. Só isso.
Mas também era tudo.
Um senhor atravessou a
praça, passos lentos, pesados, medidos. Parou perto da parada, ajeitou o
cachecol e lançou um olhar discreto ao vermelho vivo que repousava sobre o colo
dela.
— Bonita, a echarpe —
disse, num tom que não pedia resposta.
Ela ergueu os olhos.
— Ganhei — respondeu, sem
acrescentar nada.
O homem não perguntou de
quem. A delicadeza dele estava justamente nisso: aceitar que algumas respostas
só existem quando vêm sozinhas.
— Vermelha assim… —
comentou, pensativo. — Serve para andar por aí sem sumir.
Ela não sorriu, mas algo se
suavizou no rosto, como quem reconhece uma pequena verdade dita sem pretensão.
O ônibus apareceu na curva.
O homem subiu. Ela não. O motorista esperou um instante que quase sugeriu
esperança, depois fechou a porta. O ônibus partiu, deixando para trás um vento
que fez a echarpe levantar — revelando o desgaste na ponta, as fibras soltas, a
marca de quem segura e solta a mesma coisa muitas vezes sem saber se deve
manter ou deixar ir.
Ela permaneceu no banco.
Respirou fundo, como quem
tenta encontrar oxigênio onde só há hesitação. Olhou o relógio, não para se
apressar, mas para confirmar que ainda havia tempo para adiar.
Talvez pegasse o próximo
ônibus.
Ou talvez caminhasse.
Ou talvez voltasse para casa e dissesse para si mesma que amanhã seria mais
fácil — sabendo que não seria.
A echarpe vermelha
escorregou um pouco pelo ombro, impaciente.
Tecidos antigos entendem inquietações.
A tarde seguia.
O mundo também.
Ela ficou ali até o vento
mudar de direção. Levantou-se, caminhou alguns passos até a borda da calçada e
parou — como quem testa a força das próprias pernas antes de qualquer verdade.
O próximo ônibus apareceu
dobrando a esquina. Ela olhou o número, respirou fundo e, por um instante,
pareceu prestes a levantar a mão. Mas não levantou. Deu dois passos para trás —
um recuo quase involuntário — e deixou o veículo seguir sem testemunha.
O barulho do motor se
afastando ocupou o lugar exato onde deveria caber uma decisão.
Ela então olhou para a
echarpe vermelha, que caía do ombro com uma firmeza teimosa. Apertou o tecido
entre os dedos — não num gesto de coragem, mas de tato, como quem confirma que
ainda sente alguma coisa concreta.
Depois virou o rosto para a
rua de onde tinha vindo.
E para a rua para onde deveria ir.
Nenhuma das duas parecia mais fácil.
Ajustou o casaco. Enfiou a
echarpe por dentro da gola, prendendo-a ali como quem guarda um segredo por
mais algumas horas. Ficou parada, imóvel, ouvindo algo que só ela podia
escutar.
E então começou a caminhar.
Não para a direita.
Nem para a esquerda.
Apenas… caminhou.
Sem pressa, sem anúncio.
Sem oferecer a ninguém — nem a si mesma — garantias sobre o que aconteceria
depois.
Só a rua, o fim da tarde, o
rumor distante do ônibus…
e a echarpe vermelha acompanhando, teimosa como sempre, o passo único que ela
escolheu dar naquele momento.
Só aquele.
Nada além.
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