Recolhendo os Pedaços
Lívia percebeu que precisava recolher os pedaços numa manhã sem cor, quando a luz entrou pela janela como quem não quer se comprometer. Havia meses ela circulava pela própria vida como uma visitante, movendo-se devagar, furtiva, tentando não tocar em nada que pudesse quebrar ainda mais o que já estava em ruínas.
Sentava-se no sofá e via os
dias deslizarem, não como quem vive, mas como quem assiste. A sensação era a de
estar na última fileira de um cinema vazio: o filme avançando, e ela ali,
imóvel, sabendo que nenhuma cena podia ser alterada — só revista, nunca corrigida.
Desde que ele partira, um
estalo seco atravessara sua existência. Não era apenas ausência; era uma
fratura. O mundo de Lívia, antes inteiro, espalhara-se pelo chão em fragmentos
pontiagudos. Cada pedaço, quando visto de perto, apontava para um tempo que já
não existia — uma cozinha com cheiro de café, um riso que interrompia o
silêncio, o jeito dele de encostar a mão nas costas dela ao passar pela sala,
como quem diz “estou aqui” sem dizer nada.
Eles eram isso: duas vidas
que se encontravam no meio das pequenas coisas. Eram as discussões gastas que
terminavam num esfregar de testa, as promessas que não viravam obrigação, a
intimidade de quem sabe exatamente quando o outro respira mais fundo, quando
pensa, quando quer fugir.
E Lívia se apoiava nessa
construção frágil e enorme como quem encosta o corpo numa parede antiga,
confiável, que sustenta a casa inteira.
Mas o “éramos”
dissolveu-se.
E ela ficou ali, só,
tentando entender onde terminavam as memórias e começava o que ainda restava
dela.
Nos primeiros meses, não
restou muita coisa.
Havia dias em que Lívia era
só lucidez — uma lucidez dolorida, que pesava nos ombros. Noutros, era puro
cansaço, um ruído de saudade ecoando pelos corredores da casa. Às vezes, não
era nada: uma sombra distraída que arrumava gavetas sem saber o que procurava,
que jogava palavras no papel na tentativa de que, ao juntá-las, tivessem algum
significado... Nada.
Quando enfim percebeu que a
salvação vinha das próprias mãos, da própria vontade de querer — ou não — sair
do abismo que a estava consumindo, decidiu voltar à raiz.
Não para recomeçar — essa
palavra nunca a convenceu —, mas para tocar cada fragmento sem desviar o rosto.
Era preciso coragem para olhar o que sobrara quando o resto desabou.
Lívia começou devagar.
Separou fotografias.
Guardou algumas, virou
outras para baixo.
Limpou a mesa onde sempre
comiam juntos.
Sentou-se ali sozinha, não
para substituir nada, mas para admitir que agora o espaço tinha outro peso,
outro silêncio.
A cada gesto, sentia que
partes suas resistiam em voltar ao lugar antigo — como se fossem de outra
pessoa. E talvez fossem mesmo.
O que seria dela daqui a
algum tempo?
Lívia não sabia responder.
Talvez se tornasse alguém
capaz de caminhar com a sombra dele sem se paralisar. Talvez descobrisse que
certas perdas criam espaço para coisas que ainda não têm nome. Talvez
permanecesse meio quebrada, meio inteira, um território instável onde a vida
insiste em passar mesmo quando tudo parece esvaziado.
Não havia mapa.
Não havia ritmo certo.
Não havia promessa de
sentido.
Havia apenas o movimento.
Lívia juntava um pedaço,
perdia outro, reconhecia um terceiro com a sensação de que já não lhe
pertencia. E seguia — não para vencer nada, mas porque seguir era o que lhe
restava.
No final daquela tarde,
abriu a janela. O ar frio entrou sem pedir licença, levantando levemente uma
folha caída no chão da sala. Ela observou o movimento mínimo, quase
imperceptível, como quem observa uma coisa antiga tentando não morrer.
Era só isso.
Sem revelação, sem cura,
sem conclusão.
Lívia respirou e ficou ali,
entre o que quebrou e o que insiste.
Sem saber quem era agora —
e sem pressa alguma de descobrir.
Silvia Marchiori Buss
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