O Calor do Teu Olhar
Ela carregava um frio escondido — desses que começam por dentro e só quem conhece reconhece. Caminhava pela tarde como quem tateia o ar, à procura de um ponto de luz que não sabia nomear.
Sentou-se perto do rio. A
água seguia seu rumo, indiferente, levando folhas e reflexos sem perguntar
nada. Era sempre ali que a memória chegava primeiro: pelas pálpebras, pelas
frestas, pelo silêncio.
E veio.
Tua imagem.
Melhor dizendo: o instante
exato em que teus olhos pousavam nos dela, como quem acende alguma coisa que
ainda não sabe se quer acender.
Havia calor ali.
Simples, direto, inteiro.
Ela respirou fundo, como
quem tenta guardar dentro do peito aquilo que já foi abraçado pela distância. A
tarde inclinava-se para a noite, e o vento soprava com o desinteresse de quem
nunca soube consolar.
Queria teu olhar.
Não o objeto da saudade, mas o gesto — aquele breve milagre de presença que se
formava no encontro das pupilas. Aquele brilho teimoso que, por segundos,
suspendia o mundo.
Sussurrou, quase sem voz:
— Queria o calor do teu olhar…
As palavras caíram perto
dos pés, leves demais para ecoar. Nada se transformou ao redor. O rio continuou
seu trajeto, a cidade continuou distante, e o banco de madeira permaneceu duro
como sempre.
E, no silêncio que se
seguiu, algo nela simplesmente se assentou — sem anúncio, sem promessa. Um
gesto íntimo, desses que não pedem explicação: só acontecem, respiram e bastam.
Levantou-se devagar,
ajeitou a echarpe e seguiu pela rua estreita. Levava consigo uma brasa pequena,
quase apagada, guardada onde ninguém poderia roubar.
E, enquanto caminhava,
sentiu que, por mais frio que o mundo inventasse, havia dentro dela um
resquício teu — discreto, vivo, luminoso o suficiente para guiá-la até o
próximo passo.
Silvia Marchiori Buss
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