De Luto Pela Morte De Uma Verdade

 A verdade morreu numa terça-feira, mas ninguém comentou o assunto.

Não por falta de coragem — mas porque, sinceramente, ninguém sabia onde enterrá-la.

Foi Anna quem percebeu primeiro. Estava procurando um lenço na gaveta da cômoda quando encontrou, entre um elástico de cabelo e uma caneta sem tinta, um espaço.
Sim: um espaço.
Um espaço onde antes havia alguma coisa que sustentava o resto.

— Não tá aqui — murmurou.
— O quê? — perguntou Samuel, sem virar o rosto.
— Aquilo.
— Ah.

Ele entendeu. Doeu nos dois ao mesmo tempo, mas de modos completamente diferentes.
Para ela, a morte da verdade vinha com o susto.
Para ele, com o alívio.

Anna puxou uma cadeira, sentou-se devagar e ficou olhando para a própria mão como se procurasse ali o rastro de algum crime.
Samuel acendeu o rádio, baixinho, para fingir normalidade.

No entanto, bastava respirar para sentir a diferença:
o ar estava torto.

Uma casa onde uma verdade morre nunca permanece alinhada.

 Tentaram seguir o dia.

Ela regou as plantas exageradamente, como se pudesse ressuscitar alguma raiz antiga.
Ele saiu para comprar pão e voltou sem lembrar por quê havia saído.

— Nós vamos falar sobre isso? — ela perguntou, tarde da noite, quando o relógio piscou 02:17 como um olho cansado.
— Se falarmos, volta?
— Não.
— Então pra quê?

Silêncio.

Não havia modelo para aquele tipo de luto.
Não existia rito, nem missa, nem palavras certas.
A morte de uma verdade nunca é anunciada nos jornais.
Não dá para postar nas redes, nem pedir flores.

Só se sente.

 Nos dias seguintes, Anna percebeu que algumas frases ficavam presas na boca, como se a língua tropeçasse em algo que não estava mais lá:

“nós sempre…”
“você nunca…”
“eu sei que…”
Nada disso encaixava.
As certezas tinham perdido o endereço.

Samuel, por outro lado, passou a dormir melhor. Sem sonhos, mas melhor.
A ausência da verdade — aquela verdade antiga, meio emperrada — tirava um peso.
Mas ele não ousava admitir isso em voz alta.
Seria indecente alegrar-se no velório de algo que, para ela, era quase sagrado.

-- Um dia, enquanto dobrava uma camiseta, Anna disse-  A pior parte não é a verdade ter morrido. É perceber o que sobrou.
— E o que sobrou? — ele perguntou.
— A gente. Sem explicação nenhuma.

Ele então puxou a cadeira, sentou ao lado dela e ficou olhando para o chão, como se o piso pudesse sussurrar alguma coisa.
Por um instante, parecia que a morte da verdade poderia aproximá-los.
Mas o instante passou rápido demais.

 Na última noite daquele mês, Anna levantou-se às quatro da manhã e, sem saber por que, abriu a porta da varanda. O vento frio entrou com cheiro de metal. Ela apoiou os braços no parapeito e pensou:

"Era uma verdade pequena. Mas sustentava tudo."

Lá dentro, Samuel também estava acordado, embora fingisse dormir.
Ele a olhou pela fresta da porta.
Viu a sombra dela tremendo.
E, pela primeira vez, sentiu a falta daquela verdade — não por causa dele, mas por causa dela.

No dia seguinte, não conversaram.
Mas havia algo diferente entre eles:
uma espécie de cuidado silencioso, como quem carrega um vaso rachado com as duas mãos.

A verdade estava morta.
Eles ainda não sabiam o que fazer com o corpo.
E talvez nunca soubessem.

Mas, mesmo assim, continuaram andando pela casa, desviando daquele espaço vazio, tentando aprender — cada um ao seu jeito — a viver com o que restou.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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