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Domingos

Os domingos são dias de acordar de maneira complicada. Talvez porque a semana ainda não tenha começado, mas o silêncio já tenha chegado. É quando a casa parece maior, o café demora mais para fazer sentido e algumas lembranças aparecem sem pedir licença. Hoje é Dia dos Pais. E há pais que estão perto, outros que já partiram, alguns que foram presença constante e outros que, por suas próprias histórias, deixaram mais perguntas do que respostas. Ser pai não cabe em uma fotografia ou em uma data no calendário. Está nos gestos que ficaram, nas palavras que lembramos, nos costumes que aprendemos sem perceber e em tantas coisas que só entendemos depois de adultos. Aos pais que ainda podem receber um abraço, que ele seja dado sem pressa. Aos que estão longe, que recebam o carinho de quem os ama. E aos que já se foram, fica a lembrança. Às vezes bonita, às vezes difícil, mas sempre parte da nossa história. Que este domingo, como todos os domingos que parecem mais complicados par...

Quando a Desculpa é o Tempo...

Vivemos dizendo que o tempo está curto. Que o dia precisava ter mais horas. Que a semana voou. O tempo acabou virando o responsável por quase tudo o que deixamos de fazer. "Não tive tempo de ligar." "Não consegui passar aí." "Depois eu faço." Essas frases saem da boca com tanta facilidade que já nem pensamos no que realmente significam. É verdade que a vida exige muito. Trabalho, contas, compromissos, preocupações. Há dias em que mal conseguimos respirar entre uma tarefa e outra. Mas existe uma diferença entre não poder e não escolher. Todos recebemos as mesmas vinte e quatro horas. O que muda é a importância que damos às coisas. Encontramos tempo para o que realmente ocupa um lugar na nossa vida. Para uma série de televisão, para as redes sociais, para resolver assuntos que julgamos urgentes. Enquanto isso, uma ligação fica para amanhã. A visita aos pais espera o próximo fim de semana. O café prometido a um amigo vai sendo adiado de mês em...

A Vida Passou Por Aqui

Rosa encontrou a caixa quando procurava outra coisa. Era uma daquelas caixas de papelão reforçado que sobrevivem a mudanças, reformas, nascimentos, despedidas. Na tampa, escrito com uma caneta já desbotada, apenas duas palavras: Rosa e Edmundo. Sorriu sem perceber. Sentou-se no chão da sala e abriu. Em cima de tudo havia um mapa de estrada dobrado tantas vezes que já não obedecia às mãos. Depois vieram recibos de hotéis simples, ingressos de cinema, uma concha trazida de uma praia qualquer, um guardanapo com o nome de um restaurante onde haviam prometido voltar. Nunca voltaram. Também apareceu uma fotografia em que os dois riam de alguma coisa que ninguém mais seria capaz de explicar. Não era uma pose bonita. Ela estava com os cabelos bagunçados pelo vento. Ele tinha os olhos quase fechados de tanto rir. Era justamente por isso que era bonita. Rosa foi colocando cada lembrança sobre o tapete. Ali estava a vida. Não os grandes acontecimentos que costumam aparecer nos...

Isso Também Passará

Helena tinha vinte e poucos anos quando ganhou um pequeno medalhão de prata. Foi presente de uma tia muito querida, dessas mulheres que falam pouco, mas parecem enxergar um pouco mais longe que os outros. De um lado, a prata era lisa. Do outro, havia apenas três palavras gravadas: Isso também passará. — Não é um enfeite — disse a tia, ao prendê-lo em um cordão. — É para os dias em que você esquecer que o tempo nunca para. Helena sorriu, sem dar muita importância. Achou a frase bonita, embora um tanto enigmática. Colocou o cordão no pescoço e saiu para viver, como fazem os jovens quando acreditam que o futuro será sempre generoso. Os anos passaram. O medalhão estava ali no dia do casamento. Estava ali quando nasceu a primeira filha, entre o medo e o espanto de descobrir que um coração podia bater fora do próprio corpo. Aparecia, discreto, em algumas fotografias de férias, escondido sob um lenço ou refletindo um raio de sol. Às vezes Helena o segurava entre os dedos. Lia ...

A Janela Aberta

Dizem que a vida gosta de surpreender. Eu, durante muito tempo, achei que isso fosse apenas uma frase bonita para confortar quem perdera o rumo. Depois descobri que era exatamente o contrário: a vida não avisa porque não precisa. Ela simplesmente acontece. Todas as manhãs, Helena abria a janela antes mesmo do café. Não esperava ninguém. Não havia cartas, visitas nem telefonemas. Ainda assim, olhava a rua como quem aguarda uma notícia capaz de mudar tudo. Os vizinhos imaginavam que ela vivia presa ao passado. Não sabiam que ela apenas aprendera a respeitar o futuro. Depois da morte do marido, quase cinquenta anos de casamento haviam se transformado em fotografias, receitas escritas à mão e uma cadeira vazia diante da mesa. A casa continuava inteira, mas o silêncio ocupava mais espaço do que os móveis. Ainda assim, Helena recusava-se a fechar a porta para a vida. Plantava flores novas a cada primavera. Lia livros de autores desconhecidos. Fazia caminhos diferentes para voltar...

Era Pra Ser Assim...

No armário da cozinha havia uma gaveta que nunca fechava direito. Ceci prometia arrumá-la todos os anos. Tirava algumas coisas, organizava outras, mas bastava uma semana para a bagunça voltar. Elásticos sem par, pilhas gastas, chaves de portas que já nem existiam, receitas amareladas, uma fita métrica quebrada. Naquela tarde de chuva, resolveu esvaziá-la completamente. Foi espalhando tudo sobre a mesa e estranhou a quantidade de objetos que um dia tinham sido importantes. Guardara quase tudo pensando que ainda serviria para alguma coisa. A vida fazia o mesmo. Mantinha culpas antigas, planos vencidos, promessas que já não combinavam com a mulher que havia se tornado. Conservava sonhos pelo simples hábito de não jogá-los fora. A gaveta ficou vazia pela primeira vez em muitos anos. Ela passou um pano no fundo de madeira, fechou-a devagar e sorriu ao notar que deslizava sem esforço. Não havia acontecido nada extraordinário. A chuva continuava caindo. O café ainda estava m...

Os Cinquenta Tons de Cinza de Dona Catarina

  Dona Catarina nunca tinha lido o famoso livro dos cinquenta tons de cinza. Na verdade, nem sabia exatamente do que se tratava. Quando as amigas comentavam sobre a história, ela apenas sorria e fingia entender. — Deve ser sobre decoração... — pensava. — Cinza combina com tudo. Mas um dia, aos sessenta e sete, aconteceu uma coisa que ela julgava impossível: apaixonou-se. Não foi por um galã de novela. Nem por um milionário elegante. Nem por um poeta de cabelos brancos olhando o pôr do sol. Apaixonou-se por seu Anselmo, um senhor de setenta e oito anos que frequentava a mesma praça onde ela alimentava os pombos todas as tardes. Ele tinha uma barriga respeitável, um joelho que estalava ao sentar e um aparelho auditivo que insistia em falhar nos momentos mais importantes. Foi amor mesmo assim. Ou talvez justamente por isso. No começo, Catarina tentou resistir. Achava ridículo. Apaixonar-se naquela idade parecia uma travessura que a vida não deveria permit...

Como é o Cheiro Daí..

  Ela nunca acreditou que a memória morasse apenas nas fotografias. As fotografias guardavam rostos, roupas, lugares. Mas havia lembranças que escolhiam outros endereços. Os cheiros, por exemplo. Bastava passar por alguém usando um perfume parecido para que   uma tarde inteira voltasse no tempo. O banco de uma praça. Um casaco esquecido sobre a cadeira. Um abraço dado às pressas porque havia um trem para pegar, um voo, uma vida chamando. Foi numa dessas tardes comuns que a música tocou baixinho no rádio. "Como é o cheiro daí? O seu eu não esqueci." Ela sorriu antes mesmo de perceber que os olhos estavam úmidos. Nunca tinha pensado que a saudade pudesse ter cheiro. Sempre imaginara que ela morasse nas palavras, nas fotografias amareladas, nas cartas guardadas dentro de livros. Mas não. A saudade era mais esperta. Escondia-se onde ninguém conseguia prender. No travesseiro recém-trocado. Na camisa esquecida atrás da porta. No café passado bem cedo. Na terra...

AS Bruxas e a Convenção do Tempo

Dizem que as bruxas se reúnem uma vez por século. Não numa noite específica, nem sob uma lua determinada. Elas simplesmente aparecem quando o mundo anda levando o relógio a sério demais. O lugar da convenção nunca é o mesmo. Há quem diga que acontece numa floresta. Outros juram que é numa biblioteca esquecida. Eu prefiro acreditar que seja numa casa antiga, dessas com varanda de madeira, chaleira sempre no fogo e janelas abertas para um jardim onde o alecrim cresce sem ninguém plantar. Naquela manhã, chegaram aos poucos. Uma vinha trazendo o cheiro de maresia preso ao vestido. Outra trazia folhas secas nos cabelos. Havia uma que parecia muito jovem e outra tão velha que ninguém saberia dizer sua idade. Talvez porque nenhuma delas tivesse idade. Ou talvez porque esse assunto jamais tivesse interessado às bruxas. Cumprimentaram-se como velhas amigas. — Como vai? — Muito bem. Faz apenas uns quarenta anos que não nos vemos. Responderam com naturalidade, como quem diz "at...

O Cérebro Aprende Caminhos

  Há alguns anos, a ciência começou a falar com mais clareza sobre a plasticidade do cérebro. Um nome complicado para uma ideia bastante simples: o cérebro muda. Ele cria novos caminhos, fortalece aqueles que usamos com frequência e vai se adaptando ao modo como vivemos, pensamos e sentimos. É como uma estrada de terra. Quanto mais carros passam por ela, mais marcada ela fica. Depois de algum tempo, quase ninguém pensa em abrir outro caminho. Todos seguem pelos mesmos sulcos. Com o cérebro acontece algo parecido. Se, todos os dias, alimentamos apenas a dor, a perda, a preocupação ou a solidão, não é que esses sentimentos sejam inventados. Eles existem, são legítimos. Mas o cérebro vai aprendendo que esse é o lugar para onde deve voltar. Ele passa a reconhecer esse território como familiar. E aquilo que era um sentimento começa, pouco a pouco, a ocupar espaço demais. É por isso que duas pessoas vivendo situações semelhantes podem reagir de maneiras tão diferentes. Não porque...

Olhos Verdes

Havia um tempo em que as pessoas comentavam sobre os olhos dela. Não eram apenas verdes. Eram vivos. Tinham o verde das folhas depois da chuva, das uvas ainda no pé, das águas rasas onde o sol consegue tocar o fundo. Quem conversava com ela tinha a impressão de que aqueles olhos sorriam antes da boca. Ela nunca deu importância a isso. Achava exagero. Os anos passaram carregando o que os anos sempre carregam. Vieram os filhos, o trabalho, as preocupações pequenas que ocupam dias inteiros e as grandes que ocupam noites. Vieram as despedidas. Algumas discretas, outras capazes de dividir a vida em antes e depois. Sem perceber, deixou de olhar demoradamente para as pessoas. Olhava para os relógios, para as contas, para o celular, para o chão. Continuava enxergando tudo, mas já não demorava o olhar em nada. Certa manhã, enquanto esperava sua vez no consultório, uma menina sentou-se ao seu lado. Devia ter uns seis anos. Observou-a por alguns segundos e perguntou, com a sinceridade...

Feito Água Enfrentando Pedra

  Há quem imagine que a força faz barulho. Que chega batendo portas, levantando a voz, impondo presença. Mas a natureza nunca pareceu pensar assim. Basta olhar um rio. Ele não discute com a pedra. Não a desafia. Não tenta vencê-la de uma vez. Apenas continua. Lúcia demorou muitos anos para entender esse movimento. Durante boa parte da vida acreditou que viver era enfrentar tudo de frente, sem recuar um passo. Brigou pelo casamento, pelos filhos, pelo trabalho, pelos pais doentes. Defendia o que amava com unhas e dentes. Ceder, para ela, tinha gosto de derrota. Até aparecer uma pedra grande demais. Não havia argumento, coragem ou insistência que fosse capaz de tirá-la do caminho. Nos primeiros tempos, fez o que sempre soubera fazer: insistiu. Bateu contra aquela realidade até perder as forças. Quanto mais tentava mudar o que não dependia dela, mais se machucava. Com o passar dos meses, algumas atitudes foram mudando, quase sem que percebesse. Parou de empurrar ...

O Nome Que Faltava

A primeira palavra desapareceu numa terça-feira de chuva fina, dessas que deixam a cidade inteira com cheiro de pano úmido e café recém-passado. Helena percebeu por que o livro aberto sobre a mesa parecia ter engolido um pedaço da frase. “Ele a olhou como quem ______ pela última vez.” Ela piscou. Pensou que fosse cansaço. Aproximou os óculos do rosto, limpou as lentes na barra do casaco, voltou a ler. Nada. O espaço permanecia ali, branco e quieto, como um dente arrancado. Passou os dedos pela página. Procurou a palavra na memória. Sabia que existia uma palavra exata para aquilo. Uma palavra antiga, usada demais, talvez até desgastada. Ainda assim necessária. Mas não vinha. Tentou outra frase. “Minha mãe sempre dizia que ninguém morre enquanto for ______.” Vazio. Abriu um dicionário. As páginas estavam intactas, exceto por pequenas ausências que começavam a aparecer como ferrugem invisível. Verbos inteiros haviam sumido. Substantivos delicados tinham deixado apena...

Saiu à Francesa

Há pessoas que atravessam a vida fazendo   muito barulho. Outras, não. Trabalham, constroem, amam, erram, recomeçam e, quando se vão, deixam um silêncio que pesa mais do que qualquer discurso. Alberto era assim. Começou pequeno. O primeiro escritório cabia numa sala emprestada, os primeiros sonhos, num bolso apertado. Trabalhou mais horas do que contou, perdeu noites, ganhou respeito. Nunca fez questão de ser o homem mais conhecido da cidade; preferia ser aquele em quem se podia confiar. A empresa cresceu. Vieram funcionários, clientes, viagens, contratos. Vieram também as contas, as preocupações e as alegrias miúdas que só quem constrói conhece. Em casa, criou os filhos sem manual. Ensinou mais pelo exemplo do que pelas palavras. Mostrou que compromisso não se anuncia, se cumpre. Nunca foi de falar de si. Quando elogiavam seu sucesso, desviava a conversa. Achava que a vida seguia em frente rápido demais para perder tempo admirando o próprio caminho. Envelheceu sem perc...

Quando o Céu Escolhe a Mesma Cor da Saudade

Existem dias em que o sol pesa. Parece estranho dizer isso. Fomos ensinados a desejar manhãs claras, céu azul, janelas abertas, gente sorrindo. Como se a felicidade tivesse uma cor oficial e ela fosse sempre luminosa. Mas quem vive uma ausência profunda sabe que nem sempre. Há dias em que a saudade prefere as nuvens. Não porque a gente deseje tristeza para o mundo. Muito pelo contrário. Que todos tenham dias claros, alegres, cheios de risos e de encontros. A dor que carregamos já basta. Ela não precisa ser dividida nem multiplicada. Mas, às vezes, o coração procura um céu que se pareça com ele. Depois de tantos anos vivendo ao lado da pessoa que se ama, a ausência não ocupa apenas um lugar da casa. Ela ocupa o corpo. Caminha junto. Dorme ao lado. Senta-se à mesa. E há momentos em que ela se torna quase física. Dói nos ombros, aperta o peito, cansa as pernas, como se a saudade tivesse aprendido a morar nos músculos. Durante muito tempo, pensei que as lembranças seriam um r...

Às Vezes

Às vezes, ela tinha a impressão de viver na estreita faixa entre duas margens. Não porque acreditasse em milagres ou esperasse algum sinal extraordinário. Também não imaginava que um dia ouviria passos no corredor ou sentiria uma mão pousar sobre a sua. Era apenas uma sensação difícil de explicar. Como quem mora à beira de um rio e, mesmo nas manhãs em que a neblina escondia tudo, sabia que a outra margem continuava existindo. A casa permanecia quase igual. Os livros ocupavam as mesmas estantes. As fotografias continuavam espalhadas pelos móveis, sem ordem alguma. A xícara preferida dele seguia no armário, misturada às demais, como sempre estivera. Ela nunca transformou a ausência em altar. Aprendera, aos poucos, que algumas lembranças respiram melhor quando permanecem no lugar de onde vieram. Mesmo assim, conversava com ele. Nunca em voz alta. As palavras surgiam enquanto dobrava roupas recém-passadas, regava as plantas da varanda ou escolhia tomates na feira. — Hoje fez...

Um Lugar Chamado Nós

  Dizem que o amor mora no coração. Nunca acreditei muito nisso. O coração é inquieto. Acelera, desacelera, se assusta, se engana. O amor parece preferir lugares menos barulhentos. Talvez ele more na cadeira que continua voltada para a janela porque ninguém teve coragem de mudá-la de lugar. Na caneca fantasiada de coelhinho que atravessou tantas manhãs que já não combina com a louça nova. Na árvore que alguém plantou sem imaginar que um dia faria sombra para quem viesse depois. Há lugares que não aparecem nos mapas. São feitos de vozes, de esperas, de risos interrompidos pelo cheiro do café, de silêncios que nunca pesaram. Chamam-se "nós". É uma palavra pequena para abrigar tanta coisa. Dentro dela cabem os invernos que enfrentamos de mãos dadas e os verões em que abríamos as janelas antes do amanhecer. Cabem as perdas, porque elas também aprendem o caminho de casa. Cabem as chegadas inesperadas, as despedidas breves, os reencontros que fingem acontecer por ...

Desejos

Quando criança, Clara acreditava que os desejos tinham peso. Os pequenos cabiam no bolso do casaco: um par de sapatos novos, um sorvete de domingo, uma bicicleta azul igual à da vizinha. Os grandes precisavam ser carregados com as duas mãos. Eram desajeitados, escorregavam, ocupavam espaço dentro da gente. Com o tempo descobriu que ninguém deixava de desejar. Apenas aprendia a esconder. Seu pai desejava chuva e olhava o céu como quem esperava uma resposta. A mãe desejava silêncio. A vizinha da esquina desejava vender a casa, mas continuava regando as roseiras todas as manhãs. O rapaz da padaria desejava ir embora da cidade e, enquanto servia os pães, perguntava aos fregueses como estava o movimento na praça, como se aquilo ainda lhe bastasse. Clara também colecionava desejos. Alguns se realizaram tão depressa que quase não deixaram lembrança. Outros ficaram esquecidos em alguma dobra da vida. Havia ainda aqueles que mudaram de nome sem que ela percebesse. Numa tarde, limpan...

Não Te Assusta! É a Saudade Chegando a Galope

Isabel estava na cozinha quando sentiu que alguém havia entrado na casa. Não ouviu a porta. Nenhum passo no corredor. Nem o rangido da madeira antiga, que sempre denunciava qualquer visita. Mesmo assim, ergueu os olhos da xícara de café. Sorriu de leve. — Não te assusta... é a saudade chegando a galope. Falava isso para si mesma havia alguns anos. Descobrira que a saudade não combina com relógios. Não marca horário nem avisa que está vindo. Às vezes aparece num domingo cheio de gente. Outras, escolhe uma terça-feira qualquer, quando tudo parece tão comum que ninguém esperaria ser atravessado por uma lembrança. Basta pouca coisa. O perfume de alguém no elevador. Uma camisa azul pendurada numa vitrine. Uma música esquecida tocando baixinho no rádio de um táxi. E pronto. A casa continua igual. A rua continua passando diante da janela. O café continua quente. Só quem muda é o coração, que por alguns minutos deixa o presente de lado e vai buscar um pedaço de outro te...