Os Ouvidos Que Não Queriam Escutar

 

Foi numa terça-feira que ela percebeu.

O marido falou alguma coisa durante o café, mas ela não ouviu.

Não era novidade. Às vezes ele falava baixo, distraído, enquanto lia o jornal. Ela pediu:

— O quê?

Ele repetiu.

Nada.

Ela olhou para ele. Os lábios se mexiam, mas nenhum som chegava.

— Acho que estou ficando surda.

Ele riu.

— Só quando interessa.

Ela também riu.

Naquele dia, porém, os ouvidos continuaram estranhos.

Na rua, escutava perfeitamente o barulho dos carros, o salto de uma mulher batendo na calçada, o vento mexendo nas árvores. Ouvia até o cachorro do apartamento ao lado, que latia duas vezes antes de começar a chorar.

Mas não ouvia algumas pessoas.

A vizinha do terceiro andar dizia bom-dia e ela via sua boca se mexer sem ouvir uma palavra.

O telefone tocava. Ela atendia. A pessoa do outro lado falava, mas havia apenas silêncio.

Depois desligava.

Curiosamente, algumas vozes continuavam chegando.

O padeiro.

A moça do caixa do supermercado.

Uma criança brincando na praça.

E o homem que vendia flores na esquina.

As vozes escolhidas pelos seus ouvidos.

Ela procurou um médico.

Fez exames.

Ouviu sons agudos, graves, baixos, altos.

Tudo normal.

— Sua audição está excelente — disse o médico.

— Mas eu não escuto algumas pessoas.

Ele sorriu, procurando uma explicação.

— Pode ser emocional.

Ela não gostou.

Em casa, começou a testar.

Ligou para a filha.

Escutou a voz dela.

Ligou para o filho.

Silêncio.

Ligou novamente.

Nada.

No dia seguinte, o filho foi até sua casa.

Ela abriu a porta.

Ele entrou, falou, perguntou, reclamou do trânsito, contou uma história sobre o trabalho.

Ela não ouviu absolutamente nada.

Mas ouviu, atrás dele, o elevador chegando ao andar.

Ouviu o ruído das portas.

Ouviu o motor.

Ouviu o próprio coração.

O filho continuava falando.

Ela começou a chorar.

Ele parou.

— Mãe?

Ela não ouviu.

Naquela noite, escreveu num papel:

Meus ouvidos estão escolhendo as pessoas que querem ouvir.

Ficou olhando para a frase durante alguns minutos.

Depois escreveu outra:

Ou sou eu que escolho e não percebi?

Foi dormir com a luz acesa.

De madrugada, acordou com alguém falando dentro do quarto.

Sentou-se na cama.

Não havia ninguém.

A voz vinha de muito perto.

Não era masculina nem feminina.

Era baixa.

Quase um sussurro.

— Você está ouvindo agora.

Ela ficou imóvel.

— Quem está aí?

Silêncio.

Depois:

— Nós.

Ela levou as mãos aos ouvidos.

E, pela primeira vez, teve medo de escutar.

Na manhã seguinte, voltou ao médico.

Levou os exames.

— Está tudo normal — ele repetiu.

Ela respirou fundo.

— Doutor, meus ouvidos não estão surdos.

— Eu sei.

— Eles estão recusando algumas vozes.

O médico ficou em silêncio.

Então perguntou:

— Quais?

Ela abriu a boca para responder.

Mas não conseguiu.

Porque naquele instante percebeu uma coisa ainda mais estranha.

Não conseguia lembrar a voz do marido.

Nem a do filho.

Nem a da mãe, morta havia tantos anos.

As vozes tinham desaparecido da memória antes de desaparecerem dos ouvidos.

Ela saiu do consultório caminhando devagar.

Na rua, uma criança chorava.

Ela ouviu.

Um homem ria ao telefone.

Ela ouviu.

Uma mulher dizia ao marido que o amava.

Ela ouviu.

Tudo.

Menos aquilo que um dia tinha sido importante.

E foi andando pela cidade, em silêncio, tentando descobrir se eram os ouvidos que tinham deixado de escutar...

ou se havia coisas que o coração já não queria mais ouvir.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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