As Mãos Que Não Queriam Tocar
As mãos começaram a recusar,
ninguém percebeu no primeiro dia... Ela colocou a xícara sobre a mesa, abriu a
janela, penteou os cabelos. Tudo parecia igual. Só havia uma pequena
dificuldade quando alguém estendia a mão para cumprimentá-la.
Os dedos dela permaneciam
junto ao corpo.
Não era vergonha. Não era
medo. Era uma recusa silenciosa, quase educada.
Com o passar dos dias, as
mãos passaram a evitar outras coisas. Não queriam segurar o corrimão do ônibus,
apertar botões, escolher frutas na feira. Quando precisava pegar alguma coisa,
esperava que estivesse suficientemente perto para alcançá-la sem encostar em
outra pessoa.
Começou a usar mangas
compridas.
Uma manhã, diante do
espelho, percebeu que suas mãos estavam diferentes. Não na aparência.
Continuavam sendo as mesmas mãos grandes, de dedos finos, com pequenas marcas
que o tempo havia deixado.
O que havia mudado era a
distância.
Elas pareciam morar alguns
centímetros longe do resto do corpo.
Ela levantou a mão direita
e aproximou-a do espelho.
Os dedos tocaram o vidro.
Do outro lado, porém, a mão
refletida permaneceu parada.
Ela recuou.
A outra mão também.
Foi até a cozinha e colocou
as duas sobre a mesa.
— O que vocês querem?
As mãos não responderam.
Naquela tarde, alguém bateu
à porta.
Era uma pessoa que ela
conhecia havia muitos anos. Trouxera pão, uma garrafa de vinho e aquele jeito
antigo de entrar sem perguntar muito.
Conversaram.
Riram de uma lembrança.
Depois ficaram em silêncio.
A visita estendeu a mão.
Ela olhou para aquela mão
durante alguns segundos.
As suas permaneceram
imóveis sobre o colo.
— Você não vai?
Não sabia responder.
A mão à sua frente
continuava estendida.
Foi quando percebeu uma
coisa que nunca havia pensado: talvez as mãos não tivessem medo de tocar.
Talvez tivessem medo de lembrar.
Lembrar daquilo que
seguraram.
Dos corpos que ajudaram a
levantar.
Dos rostos que acariciaram.
De outras mãos que um dia
estiveram ali e depois desapareceram.
A visita recolheu a própria
mão.
Levantou-se.
Na porta, antes de sair,
olhou para ela como quem espera alguma coisa que não sabe pedir.
Ela também esperou.
Mas nenhuma das mãos se
moveu.
Quando a porta fechou, ela
voltou para a cozinha.
As mãos continuavam sobre a
mesa.
Dessa vez, porém, havia
alguma coisa diferente.
A esquerda se aproximou
devagar da direita.
Os dedos se encostaram.
E ficaram assim durante
muito tempo.
Não era um abraço.
Ainda não.
Talvez nem soubessem mais o
que era.
Lá fora, a cidade
continuava cheia de pessoas apertando mãos, segurando crianças, carregando
sacolas, acariciando cabelos, fechando portas.
Dentro da casa, duas mãos
aprendiam, sozinhas, a suportar o próprio toque.
Silvia Marchiori Buss
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