Sonho: Ilusão ou Realidade

 Sonho é uma palavra pequena para uma coisa que pode ocupar uma vida inteira.

A gente sonha dormindo, sonha acordado, sonha com o que ainda não aconteceu e, às vezes, sonha até com aquilo que sabe que não vai acontecer.

Mas o que é um sonho?

Uma ilusão? Uma vontade que a cabeça inventa para suportar os dias? Ou uma realidade que ainda não encontrou lugar no mundo?

Quando somos crianças, sonhar parece tão natural quanto brincar. Uma caixa de papelão pode virar uma casa, uma toalha pode virar uma capa, o quintal pode ser um país inteiro. Ninguém pergunta se aquilo é possível. A criança simplesmente entra no sonho e, por alguns instantes, aquele mundo existe.

Depois crescemos.

E começam as perguntas.

Quanto custa? É possível? Você tem idade para isso? E se não der certo? Não seria melhor escolher algo mais seguro?

Aos poucos, aprendemos a colocar limites até naquilo que ainda nem tentamos. Alguns sonhos vão ficando quietos, guardados em algum canto da memória. Não necessariamente porque deixaram de existir, mas porque fomos deixando de olhar para eles.

Há sonhos que dependem de nós. Um curso, uma viagem, uma casa, um livro que queremos escrever, uma profissão que desejamos exercer. São sonhos que podem sair do pensamento e ganhar forma através de escolhas, trabalho, insistência.

Outros não.

Existem sonhos que não obedecem à nossa vontade.

Encontrar alguém que já partiu. Voltar a um tempo que acabou. Ter novamente uma conversa que ficou interrompida. Acordar um dia e descobrir que aquilo de que sentimos falta estava ali, exatamente onde deixamos.

Esses sonhos não cabem em calendário.

A razão conhece limites, datas, distâncias, perdas. Sabe que certas portas se fecharam. O sonho não conhece muito bem essas fronteiras. Ele atravessa uma porta que a realidade fechou e, por alguns instantes, devolve aquilo que perdemos.

Pode trazer uma voz, um cheiro, um abraço.

Pode nos levar para uma cidade onde nunca estivemos ou para uma casa onde já moramos e que hoje existe apenas na memória.

E, por alguns minutos, aquilo parece real.

Mas é ilusão?

Não sei.

Porque há coisas que não são concretas e, mesmo assim, mudam concretamente a nossa vida.

Uma lembrança pode fazer o coração acelerar.

Uma música pode trazer alguém de volta por alguns segundos.

Um cheiro pode nos transportar para uma tarde de cinquenta anos atrás.

Uma palavra pode mudar o rumo de um dia.

Talvez sonho e realidade não sejam tão opostos quanto parecem. Talvez sejam duas maneiras de existir. Uma acontece diante dos nossos olhos; a outra acontece dentro de nós. Uma podemos tocar, fotografar, medir. A outra só conseguimos sentir.

E há momentos em que elas quase se confundem.

Já tive sonhos que pareciam absurdos e outros tão possíveis que eu custava a acordar. E também já acordei pensando: que pena.

Não porque fossem necessariamente bons, mas porque durante aquele pequeno intervalo alguma coisa tinha voltado a existir.

Talvez essa seja uma das delicadezas do sonho. Ele não promete, não garante, não assina compromisso com o futuro. Apenas aparece.

Às vezes durante a noite.

Às vezes no meio de uma tarde qualquer.

Diante de uma janela, ouvindo uma música, caminhando por uma rua desconhecida.

E, de repente, pensamos em alguma coisa que parecia esquecida.

Um desejo.

Uma pessoa.

Um lugar.

Uma vida que imaginamos ter.

Por alguns instantes, ficamos entre o que foi, o que é e o que ainda poderia ser.

Talvez seja aí que o sonho encontre a realidade.

Porque alguns sonhos atravessam essa fronteira. Ganham corpo, endereço, nome. Tornam-se uma viagem, uma casa, um encontro, um livro, uma vida diferente daquela que imaginávamos.

Outros permanecem do lado de dentro.

Continuam sendo apenas sonhos.

E nem por isso são menos verdadeiros.

Talvez a realidade seja aquilo que conseguimos viver. E o sonho, aquilo que ainda conseguimos imaginar.

Um precisa do mundo para existir. O outro precisa de nós.

Por isso, quando alguém pergunta se sonho é ilusão ou realidade, talvez não seja preciso escolher.

Há sonhos que um dia atravessarão a porta e entrarão na vida.

Há outros que permanecerão para sempre do lado de dentro, onde ninguém consegue alcançá-los, mas também onde ninguém consegue tirá-los de nós.

Penso que aí o sonho tenha sua pequena mágica: ele abre uma janela onde a realidade colocou uma parede.

A gente olha por essa janela, vê por alguns instantes aquilo que poderia ser, aquilo que foi, aquilo que ainda desejamos.

Depois fecha os olhos.

Ou continua olhando.

Porque, enquanto alguém é  capaz de sonhar, a realidade pode ser maior do que aquilo que os olhos conseguem enxergar...

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

Sonho é uma palavra pequena para uma coisa que pode ocupar uma vida inteira.

A gente sonha dormindo, sonha acordado, sonha com o que ainda não aconteceu e, às vezes, sonha até com aquilo que sabe que não vai acontecer.

Mas o que é um sonho?

Uma ilusão? Uma vontade que a cabeça inventa para suportar os dias? Ou uma realidade que ainda não encontrou lugar no mundo?

Quando somos crianças, sonhar parece tão natural quanto brincar. Uma caixa de papelão pode virar uma casa, uma toalha pode virar uma capa, o quintal pode ser um país inteiro. Ninguém pergunta se aquilo é possível. A criança simplesmente entra no sonho e, por alguns instantes, aquele mundo existe.

Depois crescemos.

E começam as perguntas.

Quanto custa? É possível? Você tem idade para isso? E se não der certo? Não seria melhor escolher algo mais seguro?

Aos poucos, aprendemos a colocar limites até naquilo que ainda nem tentamos. Alguns sonhos vão ficando quietos, guardados em algum canto da memória. Não necessariamente porque deixaram de existir, mas porque fomos deixando de olhar para eles.

Há sonhos que dependem de nós. Um curso, uma viagem, uma casa, um livro que queremos escrever, uma profissão que desejamos exercer. São sonhos que podem sair do pensamento e ganhar forma através de escolhas, trabalho, insistência.

Outros não.

Existem sonhos que não obedecem à nossa vontade.

Encontrar alguém que já partiu. Voltar a um tempo que acabou. Ter novamente uma conversa que ficou interrompida. Acordar um dia e descobrir que aquilo de que sentimos falta estava ali, exatamente onde deixamos.

Esses sonhos não cabem em calendário.

A razão conhece limites, datas, distâncias, perdas. Sabe que certas portas se fecharam. O sonho não conhece muito bem essas fronteiras. Ele atravessa uma porta que a realidade fechou e, por alguns instantes, devolve aquilo que perdemos.

Pode trazer uma voz, um cheiro, um abraço.

Pode nos levar para uma cidade onde nunca estivemos ou para uma casa onde já moramos e que hoje existe apenas na memória.

E, por alguns minutos, aquilo parece real.

Mas é ilusão?

Não sei.

Porque há coisas que não são concretas e, mesmo assim, mudam concretamente a nossa vida.

Uma lembrança pode fazer o coração acelerar.

Uma música pode trazer alguém de volta por alguns segundos.

Um cheiro pode nos transportar para uma tarde de cinquenta anos atrás.

Uma palavra pode mudar o rumo de um dia.

Talvez sonho e realidade não sejam tão opostos quanto parecem. Talvez sejam duas maneiras de existir. Uma acontece diante dos nossos olhos; a outra acontece dentro de nós. Uma podemos tocar, fotografar, medir. A outra só conseguimos sentir.

E há momentos em que elas quase se confundem.

Já tive sonhos que pareciam absurdos e outros tão possíveis que eu custava a acordar. E também já acordei pensando: que pena.

Não porque fossem necessariamente bons, mas porque durante aquele pequeno intervalo alguma coisa tinha voltado a existir.

Talvez essa seja uma das delicadezas do sonho. Ele não promete, não garante, não assina compromisso com o futuro. Apenas aparece.

Às vezes durante a noite.

Às vezes no meio de uma tarde qualquer.

Diante de uma janela, ouvindo uma música, caminhando por uma rua desconhecida.

E, de repente, pensamos em alguma coisa que parecia esquecida.

Um desejo.

Uma pessoa.

Um lugar.

Uma vida que imaginamos ter.

Por alguns instantes, ficamos entre o que foi, o que é e o que ainda poderia ser.

Talvez seja aí que o sonho encontre a realidade.

Porque alguns sonhos atravessam essa fronteira. Ganham corpo, endereço, nome. Tornam-se uma viagem, uma casa, um encontro, um livro, uma vida diferente daquela que imaginávamos.

Outros permanecem do lado de dentro.

Continuam sendo apenas sonhos.

E nem por isso são menos verdadeiros.

Talvez a realidade seja aquilo que conseguimos viver. E o sonho, aquilo que ainda conseguimos imaginar.

Um precisa do mundo para existir. O outro precisa de nós.

Por isso, quando alguém pergunta se sonho é ilusão ou realidade, talvez não seja preciso escolher.

Há sonhos que um dia atravessarão a porta e entrarão na vida.

Há outros que permanecerão para sempre do lado de dentro, onde ninguém consegue alcançá-los, mas também onde ninguém consegue tirá-los de nós.

Penso que aí o sonho tenha sua pequena mágica: ele abre uma janela onde a realidade colocou uma parede.

A gente olha por essa janela, vê por alguns instantes aquilo que poderia ser, aquilo que foi, aquilo que ainda desejamos.

Depois fecha os olhos.

Ou continua olhando.

Porque, enquanto alguém é  capaz de sonhar, a realidade pode ser maior do que aquilo que os olhos conseguem enxergar...

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

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