A Impressionante Leveza De Ser


Havia dias em que ela sentia o próprio corpo com uma nitidez quase incômoda.

Os pés depois de uma caminhada, os ombros cansados, os joelhos, a respiração. A carne tinha seu peso. Os músculos também. Dentro dela, os órgãos trabalhavam em silêncio, cada um ocupando seu lugar, como se o corpo fosse uma casa cheia de quartos que ela nunca visitava.

Mas o que era o ser?

Ela pensava nisso enquanto caminhava.

O corpo podia ser pesado. Podia envelhecer, adoecer, cansar. Podia carregar cicatrizes e marcas que o tempo deixava sem pedir licença.

O ser parecia outra coisa.

Uma criança atravessou a praça correndo atrás de uma bola. O corpo pequeno batia contra o chão a cada passo, mas havia qualquer coisa naquela corrida que não obedecia à gravidade.

Pensou que fosse a alegria.

Ela continuou andando.

Passou por um homem sentado sozinho num banco. Ele tinha os cabelos brancos e as mãos apoiadas sobre uma bengala. Parecia carregar muitos anos sobre os ombros. Quando uma mulher passou e lhe disse bom dia, ele levantou o rosto e sorriu.

O sorriso não carregava idade.

Nem cansaço.

Nem passado.

Seguiu leve.

Ela pensou nas coisas que carregamos sem que ninguém veja.

Uma palavra mal dita há vinte anos.

Uma pessoa que partiu.

Uma culpa que não encontrou lugar para descansar.

Uma saudade que aparece no meio de uma manhã comum, quando a gente menos espera.

Há pesos que não têm matéria... e são  justamente esses os mais difíceis de deixar pelo caminho.

Naquela tarde, ao atravessar uma rua, uma folha caiu sobre seu cabelo.

Ela não percebeu.

Só encontrou a folha quando entrou em casa.

Ficou alguns segundos olhando para ela na palma da mão.

Tão pequena.

Tão frágil.

Tinha vindo da árvore, atravessado o ar e pousado sobre ela sem fazer ruído.

Pensou que o ser fosse um pouco assim.

Não separado da matéria, porque ninguém escapa do próprio corpo. Mas capaz de atravessá-la de maneiras que nenhuma balança alcança.

Uma lembrança pode levar alguém para outra cidade.

Uma música pode abrir uma porta para um tempo que já passou.

Um cheiro pode devolver uma cozinha, uma voz, uma tarde inteira.

E há abraços que continuam acontecendo muito depois que os braços já não estão ali.

Ela abriu a janela.

Entrou um pouco de vento.

A folha escapou de sua mão e voltou para a rua, misturada a outras folhas que corriam pela calçada.

Ela ficou olhando.

O corpo permanecia ali, com seu peso, seus limites, suas pequenas dores.

Mas alguma coisa nela parecia acompanhar o movimento da folha.

Sem nome.

Sem medida.

E ela continuou junto à janela por mais alguns minutos, vendo as folhas se espalharem pela rua, sem saber exatamente para onde iam.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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