Alguma Coisa Dormia Dentro de Mim
Naquela manhã, acordei
antes do despertador.
Não sabia por quê.
A casa estava escura e
silenciosa. Fiquei deitada, olhando para o teto, até ouvir três notas de uma
música.
Um assobio.
Abri os olhos.
As três notas vieram outra
vez.
Levantei.
Na cozinha, nada.
Abri a janela. A rua estava
quase vazia. Um homem caminhava com um cachorro, um ônibus passou devagar e
alguém, em algum apartamento, bateu uma porta.
Fechei a janela.
A música voltou.
Não vinha de fora.
Eu a conhecia.
Isso foi o que me
incomodou.
Não consegui lembrar de
onde.
Preparei o café e fiquei
sentada à mesa, esperando que a lembrança viesse.
Não veio.
Saí para caminhar.
Na esquina, uma menina
brincava com uma bola. Ela chutou com força demais e a bola atravessou a
calçada até parar junto aos meus pés.
Peguei.
— Joga pra mim.
Joguei.
Ela correu.
A bola voltou.
Joguei novamente.
— Você joga bem — ela
disse.
— Já joguei melhor.
Ela ficou me olhando.
— Você está triste?
A pergunta veio tão
naturalmente que não soube responder.
— Não.
Ela pegou a bola.
— Então está pensando.
E saiu correndo.
Fiquei parada,
acompanhando-a com os olhos.
Quando voltei para casa, a
música ainda estava comigo.
Passei diante de uma loja.
Um vestido vermelho estava
na vitrine.
Entrei.
Não sei por quê.
Experimentei.
Quando me vi no espelho,
senti alguma coisa.
Não era lembrança.
Era outra coisa.
Uma espécie de
reconhecimento.
Comprei o vestido.
Em casa, deixei a sacola
sobre a cama.
Fui preparar o almoço.
Cortei os tomates.
Lavei as folhas.
Quando peguei a faca, ouvi
a música novamente.
Dessa vez, a melodia
inteira.
E uma cena apareceu.
Uma cozinha.
Uma panela no fogo.
Uma pessoa dançando
descalça.
Uma voz cantando errado.
O vestido vermelho.
Não o que estava sobre a
minha cama.
Outro.
Muito parecido.
Fiquei imóvel.
Tentei puxar o resto da
lembrança.
Nada.
Só aquela cozinha.
Aquela música.
Aquela cor.
E uma sensação tão forte
que precisei sentar.
Não chorei.
Também não sorri.
Fiquei ali, esperando.
Mas não havia mais nada.
À tarde, tirei o vestido da
sacola.
Coloquei sobre a cama.
Fiquei olhando para ele.
Era apenas um vestido.
Vermelho.
Bonito.
Comprei porque gostei.
Ou não.
Guardei no armário.
A música continuava na
minha cabeça.
E aquele sentimento também.
Quieto, mas já não
adormecido.
Foi então que me ocorreu
uma pergunta que não soube responder:
Será que tudo aquilo
precisava mesmo ser despertado?
Ou será que há coisas que a
gente aprende a deixar dormir porque continuar vivendo sem elas parece mais
seguro?
Fechei a porta do armário.
Apaguei a luz do quarto.
Na cozinha, quase no
escuro, comecei a assobiar novamente.
Dessa vez, não parei no
meio.
Alguma coisa dormia dentro
de mim.
Eu não sabia bem o que era.
Nem sabia há quanto tempo
estava ali.
Só sabia que havia
despertado alguma coisa que eu ainda não estava certa de querer acordar.
Silvia Marchiori Buss
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