O Coração Que Não Queria Sentir

 Havia um coração cansado de sentir.

Não era tristeza. Tristeza ele conhecia bem. Também conhecia a saudade, o medo, a espera, aquelas pequenas alegrias que chegam nem mais nem menos, e vão embora antes que a gente consiga segurá-las.

O problema era outro.

Ele estava farto de sentir tudo.

Um dia, resolveu se esconder.

Não dentro do peito, porque ali seria fácil demais encontrá-lo. Escondeu-se atrás de uma costela, num lugar estreito e escuro onde nem o próprio dono costumava prestar atenção.

Ali ficou.

Parou de responder às lembranças.

Quando alguém dizia um nome conhecido, ele permanecia quieto.

Quando uma música antiga atravessava a casa, não acelerava.

Quando uma mão procurava outra no meio da noite, ele não fazia nada.

Era quase confortável.

Quase.

Com o passar dos dias, o corpo percebeu que alguma coisa estava errada. Caminhava, comia, conversava, dormia. Fazia tudo o que se esperava de uma pessoa.

Mas havia um vazio estranho entre uma coisa e outra.

O café já não tinha gosto.

As fotografias eram apenas fotografias.

Os abraços não encontravam lugar para pousar.

Até que, numa tarde, alguém abriu uma gaveta.

Dentro havia uma pequena caixa de madeira.

Não sabia há quanto tempo estava ali.

Ela guardava uma aliança, dois ingressos antigos e um pedaço de papel dobrado muitas vezes.

O coração, escondido atrás da costela, percebeu antes dos olhos.

Começou a bater mais forte.

Ele tentou parar.

Não conseguiu.

O papel foi aberto.

Havia apenas uma frase.

Ele reconheceu a letra.

Foi então que compreendeu que não tinha se escondido da dor.

Tinha se escondido daquilo que ainda podia alcançá-lo.

O coração bateu de novo.

Uma vez.

Depois outra.

E outra.

A pessoa fechou os olhos, apertou o papel contra o peito e ficou ali, parada, enquanto alguma coisa dentro dela procurava o caminho de volta.

O coração não gostou.

Sentir doía.

Mas, naquela tarde, depois de muito tempo, ele não quis fugir.

Continuou escondido atrás da costela, é verdade.

Só que agora já não estava tão quieto.

De vez em quando, ainda batia,mas nem ele sabia exatamente para quem.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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