A Impressionante Leveza De Ser
Havia dias em que ela sentia o próprio corpo com uma nitidez quase incômoda. Os pés depois de uma caminhada, os ombros cansados, os joelhos, a respiração. A carne tinha seu peso. Os músculos também. Dentro dela, os órgãos trabalhavam em silêncio, cada um ocupando seu lugar, como se o corpo fosse uma casa cheia de quartos que ela nunca visitava. Mas o que era o ser? Ela pensava nisso enquanto caminhava. O corpo podia ser pesado. Podia envelhecer, adoecer, cansar. Podia carregar cicatrizes e marcas que o tempo deixava sem pedir licença. O ser parecia outra coisa. Uma criança atravessou a praça correndo atrás de uma bola. O corpo pequeno batia contra o chão a cada passo, mas havia qualquer coisa naquela corrida que não obedecia à gravidade. Pensou que fosse a alegria. Ela continuou andando. Passou por um homem sentado sozinho num banco. Ele tinha os cabelos brancos e as mãos apoiadas sobre uma bengala. Parecia carregar muitos anos sobre os ombros. Quando uma mulher pas...