Nossos Setembros
Setembro tinha uma mania curiosa: nunca chegava sozinho. Trazia sempre alguma coisa debaixo do braço. Uma lembrança, uma ausência, uma fotografia que ninguém lembrava de ter tirado. Às vezes trazia apenas um cheiro — de terra molhada, de roupa guardada, de café passado cedo demais. Eu nunca sabia o que ele deixaria. Talvez por isso tivesse aprendido a desconfiar das manhãs de setembro. Naquele tempo, você ainda estava aqui. Nós não dizíamos “nossos setembros”. Não havia necessidade. Setembro era apenas setembro, como qualquer outro mês. A gente vivia dentro dele sem perceber que estava construindo alguma coisa que, muitos anos depois, teria nome. Havia setembro na toalha florida da mesa. No rádio ligado enquanto você fazia a barba. Na roupa estendida no quintal. Na janela que você esquecia aberta. Em certas tardes, havia setembro até no silêncio entre uma palavra e outra. E havia você. Principalmente você. Depois, os anos fizeram aquilo que os anos sabem faz...