Os Dias Que Se Repetiam

 

Naquela terça-feira, Helena acordou às 6h17.

Não era uma terça-feira qualquer. Ela sabia disso porque o rádio, antes mesmo de o locutor dizer bom-dia, anunciou a temperatura: dezenove graus. Depois veio a música que ela não gostava, aquela em que uma mulher cantava sobre voltar para casa.

Helena desligou o rádio.

Na cozinha, encontrou uma xícara sobre a mesa.

Não era a sua.

Era uma xícara branca, pequena, com uma lasca na borda. Dentro havia café ainda morno.

Ela ficou olhando.

Morava sozinha havia onze anos.

Jogou o café fora, lavou a xícara e não pensou mais no assunto.

Às 8h40, saiu para o trabalho.

Na esquina, um homem de camisa azul deixou cair uma pasta cheia de papéis. Helena ajudou a recolhê-los. Um dos papéis tinha uma fotografia de uma menina de vestido amarelo.

— Obrigado — disse o homem.

— Não há de quê.

Às 12h15, no restaurante de sempre, o garçom colocou diante dela o prato errado.

— Filé com batatas — disse ele.

— Eu pedi peixe.

O garçom franziu a testa.

— A senhora sempre pede filé.

Helena não respondeu.

Naquela noite, às 22h03, recebeu um telefonema.

Ninguém falou.

Ela ficou alguns segundos com o telefone no ouvido.

Então ouviu uma respiração.

E desligou.

No dia seguinte, acordou às 6h17.

Dezenove graus.

A mesma música.

A mesma xícara branca sobre a mesa.

O mesmo café morno.

Helena não tocou na xícara.

Às 8h40, o homem de camisa azul derrubou a pasta na esquina.

Os mesmos papéis.

A mesma fotografia da menina de amarelo.

Ao meio-dia, o garçom trouxe filé com batatas.

Às 22h03, o telefone tocou.

Ninguém falou.

Dessa vez, Helena não desligou.

— Quem é?

Silêncio.

Depois, uma voz muito baixa:

— Você está atrasada.

A ligação caiu.

Helena passou a noite acordada.

No terceiro dia, não foi trabalhar.

Às 6h17, o rádio ligou sozinho.

Dezenove graus.

A música.

A xícara.

Ela quebrou a xícara contra a parede.

Às 8h40, alguém bateu à porta.

Era o homem da camisa azul.

Helena não o conhecia.

Pelo menos não pessoalmente.

— A senhora deixou isto cair ontem.

Ele lhe entregou a fotografia da menina.

Helena olhou para o retrato.

A menina tinha os cabelos presos por duas fitas amarelas.

No verso, havia uma data.

17 de setembro de 1989.

E um nome.

Helena.

Ela sentiu um frio atravessar o corpo.

— Onde você conseguiu isso?

O homem olhou para dentro da casa.

— Aqui.

— Como?

Ele apontou para a parede.

— Estava atrás do quadro.

Helena virou-se.

O quadro da sala estava torto.

Ela o retirou.

Atrás dele havia um buraco no reboco.

E, dentro do buraco, dezenas de fotografias.

Todas da mesma menina.

Todas com vestidos diferentes.

Todas sorrindo.

Em algumas, ela tinha cinco anos.

Depois sete.

Depois dez.

Depois quinze.

Depois vinte.

Depois trinta.

Helena começou a tremer.

Na última fotografia, a menina parecia ter exatamente a idade que ela tinha agora.

No verso estava escrito:

Não deixe que ela acorde.

Helena não dormiu naquela noite.

Às 22h03, o telefone tocou.

Ela atendeu.

— Quem é?

Dessa vez, a voz respondeu imediatamente.

Era a voz dela.

— Eu.

Helena sentou-se devagar.

— O que você quer?

— Que você pare de repetir.

— Repetir o quê?

Do outro lado, uma respiração.

— O dia.

O telefone ficou mudo.

Na manhã seguinte, Helena tomou uma decisão.

Às 6h17, não levantou.

Ficou na cama.

Às 6h18, nada aconteceu.

6h19.

6h20.

Ela sorriu.

Finalmente.

Levantou-se.

Foi até a cozinha.

Não havia xícara.

Saiu de casa.

O homem da camisa azul não estava na esquina.

No restaurante, pediu peixe.

O garçom trouxe peixe.

À noite, às 22h03, o telefone não tocou.

Helena chorou de alívio.

Naquela madrugada, dormiu profundamente.

Quando acordou, havia sol entrando pela janela.

Olhou o relógio.

10h32.

Sorriu.

Foi até o banheiro.

Lavou o rosto.

Então percebeu uma coisa.

No espelho, atrás dela, havia uma menina.

Vestido amarelo.

Duas fitas no cabelo.

Helena virou-se.

Não havia ninguém.

Olhou novamente para o espelho.

A menina continuava ali.

E sorria.

Helena encostou a mão no vidro.

A menina fez o mesmo.

Então, muito devagar, começou a envelhecer.

Cinco anos.

Dez.

Quinze.

Vinte.

Trinta.

Até ficar igual a Helena.

Helena deu um passo para trás.

A mulher do espelho, então, falou:

— Agora é a minha vez.

O espelho escureceu.

Helena piscou.

E acordou.

6h17.

Dezenove graus.

A música no rádio.

Uma xícara branca sobre a mesa.

E, dentro dela, café ainda morno.

Helena ficou sentada na cama, olhando para a porta.

Esperava o homem da camisa azul.

Esperava o telefone.

Esperava a fotografia.

Mas nada disso aconteceu.

Porque naquela terça-feira havia uma coisa diferente.

Na cozinha, uma menina de vestido amarelo tomava café.

Helena ficou parada na porta.

A menina levantou os olhos.

— Você demorou — disse.

Helena reconheceu a própria voz.

A menina sorriu.

— Agora eu posso viver o seu dia.

E Helena percebeu, tarde demais, que nunca tinha sido ela quem repetia os dias.

Era o dia que repetia Helena.

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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