O Dia Que Não Tem Par
Havia uma coisa errada na
semana.
Ninguém sabia dizer
exatamente o quê, mas havia.
Segunda-feira vinha
agarrada à terça, como duas irmãs que ainda tinham coisas para conversar.
Quinta-feira já se encostava na sexta, porque a sexta tinha pressa de chegar. E
sábado, quando aparecia, trazia o domingo consigo, feito sombra.
Só a quarta-feira não tinha
ninguém.
Ficava ali, no meio.
Sozinha.
Durante muito tempo,
ninguém se deu conta disso.
Talvez porque a
quarta-feira tivesse aprendido a não fazer barulho.
Chegava sem promessas, sem
despedidas, sem aquela alegria antecipada das sextas-feiras. Era apenas quarta.
O dia em que a semana já havia ido longe demais para recomeçar e ainda estava
longe demais para terminar.
Foi por isso que certa
noite ela perguntou ao Tempo:
— Por que eu não tenho um
par?
O Tempo, que já tinha
ouvido perguntas muito mais difíceis, demorou a responder.
— Porque alguém precisava
ficar sozinho.
A quarta-feira não gostou
da resposta.
— Mas todo mundo precisa de
alguém.
— Precisa?
Ela não respondeu.
Ficou pensando nisso
durante toda a noite.
No dia seguinte, tentou
encontrar um par.
Perguntou à terça-feira se
queria ficar.
A terça disse que não.
Perguntou à quinta.
A quinta também não podia.
Estava ocupada demais esperando a sexta.
Então a quarta desistiu.
Passou a observar as
pessoas.
E foi quando percebeu uma
coisa que os outros dias não percebiam.
As pessoas também tinham
pares.
Ou pareciam ter.
Havia casais caminhando de
mãos dadas, famílias reunidas em torno de mesas, amigos que se telefonavam
todas as noites. Mas, de vez em quando, alguém ficava parado diante de uma
porta que já não seria aberta.
Uma mulher ainda comprava
pão para dois.
Um homem colocava dois
pratos na mesa e só depois se lembrava.
Havia quem dormisse de um
lado da cama, deixando intacto o outro.
Havia quem tivesse alguém,
mas não tivesse companhia.
E havia quem tivesse
perdido o seu par sem nunca ter aprendido como se fica de pé depois disso.
A quarta-feira começou a
reconhecê-los.
Não sabia seus nomes.
Sabia apenas que apareciam.
Um homem caminhando devagar
depois de enterrar a mulher.
Uma moça que trabalhava até
tarde para não voltar cedo para casa.
Uma mãe cujo filho morava
longe.
Um velho que ia à praça
porque a casa ficara grande demais depois que ela partiu.
A quarta-feira começou a
guardá-los.
Guardava suas pequenas
tristezas.
Seus telefonemas não
feitos.
As fotografias que ninguém
mais olhava.
As saudades que apareciam
de repente no supermercado, no elevador, diante de uma música.
Guardava tudo. Por isso as
quartas-feiras tenham ficado mais silenciosas.
Até que, numa delas, uma
mulher saiu de casa sem saber muito bem para onde ia.
Levava apenas uma bolsa
pequena e uma fotografia dentro dela.
Sentou-se num banco de
praça.
Pouco depois, um homem sentou na outra ponta.
Não se conheciam.
Não trocaram palavra.
Ficaram ali.
Cada um com sua solidão.
Depois de algum tempo, a
mulher tirou a fotografia da bolsa.
O homem olhou de relance.
— Bonita — disse.
Ela sorriu.
— Era.
E foi só isso.
Não houve romance.
Não houve milagre.
Ele não tomou a mão dela.
Ela não perguntou o nome
dele.
Mas ficaram ali mais um
pouco.
Dois desconhecidos
dividindo o mesmo silêncio.
Naquela noite, a
quarta-feira voltou para casa diferente.
Foi procurar o Tempo.
— Já descobri por que não
tenho um par.
O Tempo sorriu.
— Descobriu?
— Descobri. Eu não tenho um
par porque sou eu quem fica com os que perderam os seus.
O Tempo não disse nada.
Então ela perguntou:
— Mas quem fica comigo?
Dessa vez, o Tempo demorou
ainda mais.
Quando respondeu, sua voz
parecia vir de muito longe:
— Ninguém.
A quarta-feira sentiu uma
tristeza funda.
Até que o Tempo completou:
— Você nunca percebeu? Você
não foi feita para ter um par.
— Então para que fui feita?
E o Tempo olhou para ela
como quem finalmente podia contar um segredo guardado havia séculos.
— Para ser o dia em que as
pessoas descobrem que conseguem continuar.
A quarta-feira ficou em
silêncio.
Desde então, ninguém mais
sabe explicar por que, algumas vezes, uma quarta-feira parece mais comprida.
É que, naquele dia, alguém
está aprendendo a dormir sozinho.
Alguém está colocando
apenas um prato na mesa pela primeira vez.
Alguém está guardando uma
aliança numa gaveta.
Alguém está descobrindo que
a saudade pode morar na mesma casa que a vida.
E, enquanto todos esperam
pela sexta-feira, a quarta permanece ali.
Sem par.
Sem festa.
Sem testemunhas.
Fazendo o trabalho mais
solitário da semana:
ensinando os que perderam
alguém a não perderem a si mesmos.
Silvia Marchiori Buss
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