Os Domingos Também Podem Ser Assim...


Às dez da manhã, ela ainda estava de pijama.

Não havia pressa. Ninguém chegaria para o almoço, ninguém telefonaria perguntando a que horas a mesa estaria posta, ninguém precisava saber o que ela faria naquele dia.

Abriu a geladeira.

Havia meio mamão, dois ovos, um pedaço de queijo e uma garrafa de vinho aberta desde a quinta-feira.

— Dá para o domingo — disse, falando sozinha.

E deu.

Comeu o mamão diretamente do prato, tomou café sem açúcar e deixou a louça na pia.

Na casa ao lado, alguém já tinha começado o churrasco. A fumaça entrava pela janela e trazia aquele cheiro de domingo que ela conhecia tão bem.

Por alguns minutos, ficou ali, respirando.

Não sentiu saudade.

Ou talvez sentisse, mas não daquela maneira que as pessoas imaginam quando falam em saudade. Era uma saudade sem lágrimas, quase doméstica, dessas que aparecem enquanto a gente procura alguma coisa numa gaveta.

Ela fechou a janela.

Tomou banho.

Escolheu uma roupa bonita.

Não porque fosse sair.

Porque quis.

Passou um pouco de perfume e, diante do espelho, pensou que fazia tempo que não se arrumava sem que houvesse alguém esperando por ela. Então resolveu...Pegou a bolsa e saiu.

Na rua, o domingo estava acontecendo para todo mundo.

Havia famílias indo para o restaurante, casais de mãos dadas, crianças com sorvete, homens de chinelo carregando sacolas de carvão. Na frente da igreja, algumas pessoas conversavam depois da missa.

Ela passou por tudo aquilo sem parar.

Entrou numa livraria.

Ficou quase uma hora olhando livros que não pretendia comprar. Acabou levando um.

Depois sentou-se sozinha numa mesa pequena de um café e pediu um pedaço de torta.

O garçom perguntou:

— Mais alguém?

Ela olhou para a cadeira vazia diante dela.

— Não. Só eu.

Disse isso com tanta naturalidade que até se surpreendeu.

Quando voltou para casa, eram quase cinco da tarde.

O apartamento estava exatamente como havia deixado.

A louça continuava na pia.

O livro novo estava dentro da bolsa.

O domingo começava a terminar.

Ela abriu a garrafa de vinho, colocou uma taça sobre a mesa e ligou o rádio.

Uma música antiga encheu a sala.

Então o telefone tocou.

Era a filha.

— Mãe, desculpa não termos ido hoje. As crianças estão cansadas, e...

— Não precisa explicar — ela interrompeu, sorrindo.

— A senhora ficou sozinha?

Ela olhou para a taça, para o livro, para a janela aberta.

Pensou em dizer que sim.

Mas não disse.

— Não. Fiquei comigo.

Do outro lado, houve um pequeno silêncio.

Depois a filha riu.

— Isso é bom?

Ela também riu.

— Ainda estou descobrindo.

Desligou.

Ficou alguns segundos olhando para o telefone.

Depois serviu mais vinho.

Naquela noite, não houve missa, nem churrasco, nem família reunida.

Houve uma mulher de pijama de manhã, uma roupa bonita à tarde, uma torta num café, um livro novo e uma taça de vinho sobre a mesa.

E houve um domingo.

Apenas um domingo.

Talvez fosse pouco. Ou, talvez fosse exatamente o que cabia naquele momento.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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