Nossos Setembros
Setembro tinha uma mania
curiosa: nunca chegava sozinho.
Trazia sempre alguma coisa
debaixo do braço. Uma lembrança, uma ausência, uma fotografia que ninguém
lembrava de ter tirado. Às vezes trazia apenas um cheiro — de terra molhada, de
roupa guardada, de café passado cedo demais.
Eu nunca sabia o que ele
deixaria.
Talvez por isso tivesse
aprendido a desconfiar das manhãs de setembro.
Naquele tempo, você ainda
estava aqui.
Nós não dizíamos “nossos
setembros”. Não havia necessidade. Setembro era apenas setembro, como qualquer
outro mês. A gente vivia dentro dele sem perceber que estava construindo alguma
coisa que, muitos anos depois, teria nome.
Havia setembro na toalha
florida da mesa.
No rádio ligado enquanto
você fazia a barba.
Na roupa estendida no
quintal.
Na janela que você esquecia
aberta.
Em certas tardes, havia
setembro até no silêncio entre uma palavra e outra.
E havia você.
Principalmente você.
Depois, os anos fizeram
aquilo que os anos sabem fazer.
Levaram coisas.
Trouxeram outras.
Mudaram o lugar dos móveis,
a cor das paredes, o número de cadeiras à mesa. Algumas pessoas passaram a
sentar-se em lugares que antes não existiam. Outras deixaram a cadeira vazia.
Foi assim que aprendi que
uma ausência também ocupa espaço.
No primeiro setembro sem
você, deixei a janela fechada.
Não por tristeza.
Por hábito.
Durante tantos anos, era
você quem a abria.
Fiquei olhando para a
maçaneta durante algum tempo, como se ela pudesse resolver sozinha uma questão
que eu ainda não sabia formular.
Depois abri.
Entrou um vento morno.
Uma folha caiu no chão da
sala.
Era uma folha pequena,
amarela, completamente fora de época.
Achei graça.
Pensei que setembro
estivesse ficando desorganizado.
Guardei a folha dentro de
um livro.
Não sei por quê.
Talvez algumas coisas sejam
guardadas antes de serem compreendidas.
Os setembros continuaram.
Um trouxe uma flor no vaso
da cozinha.
Outro trouxe uma notícia
inesperada.
Outro trouxe uma neta
crescendo depressa demais.
Outro trouxe uma conta para
pagar.
Outro trouxe uma tarde
inteira sem que eu precisasse ir a lugar algum.
E houve um em que percebi
que já não esperava você.
Essa foi a parte mais
estranha.
Não foi esquecer.
Eu saberia reconhecer você
em qualquer fotografia, mesmo numa fotografia sem rosto.
Foi outra coisa.
Uma espécie de mudança no
lugar da espera.
Como quando se muda um
móvel de lugar e, durante semanas, o corpo continua desviando por onde ele já
não está. O amor também faz isso. Deixe móveis invisíveis pela casa.
Anos depois, encontrei a
folha dentro do livro.
Estava quebradiça, quase
transparente.
Coloquei-a sobre a mesa.
Por algum motivo, lembrei
daquela manhã.
Da janela.
Da sua mão na maçaneta.
E então entendi uma coisa
que não tinha entendido quando a guardei:
eu não havia guardado a
folha.
Havia guardado setembro.
Fiquei algum tempo olhando
para ela.
Lá fora, o mês continuava
acontecendo.
As árvores se mexiam.
Uma mulher atravessava a
rua carregando flores.
Alguém ria na calçada.
Um cachorro latia para uma
bicicleta.
A vida tinha essa
delicadeza cruel de continuar acontecendo enquanto a gente ainda estava
tentando alcançar alguma coisa que já tinha passado.
Peguei a folha.
Pensei em devolvê-la ao
jardim.
Mas não devolvi.
Coloquei-a novamente dentro
do livro.
Não foi para conservá-la.
Acho que foi porque algumas
coisas não querem ser conservadas.
Querem apenas continuar
tendo um lugar.
E talvez seja isso que
tenham sido nossos setembros:
não os meses que passaram,
mas os lugares onde, de vez
em quando,
a vida ainda sabe nos
encontrar. Mesmo não mais existindo.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário