O Setembro Que Ficou
Setembro costumava ser um dos melhores meses do ano.
Apesar das minhas alergias primaveris, era por certo o nosso mês. Antecedia o verão, mas ainda deixava algumas noites em que puxávamos o edredom e dormíamos bem pertinho. Havia qualquer coisa de bom naquele intervalo entre o frio que ainda não queria ir embora e o calor que começava a chegar.
Gostávamos desse tempo.
Talvez porque não fosse inteiro. Talvez porque ainda guardasse um pouco de cada estação.
Foram dias e noites inesquecíveis. Não porque soubéssemos que um dia seriam lembrados assim, mas porque a vida tem essa maneira quase perversa de transformar em preciosidade aquilo que, enquanto acontece, parece apenas mais um dia.
Até aquela metade de semana de um setembro sem ano.
Não sei mais dizer em que ano setembro deixou de ser apenas um mês.
Sei que aconteceu.
E talvez seja justamente isso que mais me intriga: não houve uma fronteira nítida. O mundo não mudou de cor. O calendário não parou. Ninguém anunciou que, a partir daquele momento, setembro teria outro significado.
Tu partiste.
Sem saber.
Sem escolher.
Sem mais um dia que antecedesse o verão.
Sem mais uma noite que lembrasse nossos invernos.
Simples assim.
Como se a vida fosse um jogo de esconde-esconde em que alguém, de repente, tivesse decidido não voltar.
E eu fiquei.
Fiquei com os meses, com as estações, com os dias que continuaram chegando pontualmente, como se nada tivesse acontecido. Fiquei com o verão, que chegou mesmo assim. Com o inverno, que voltou no ano seguinte. Com todas as primaveras que vieram depois daquela.
E com setembro.
Ah, setembro.
Foi preciso muito tempo para entender que não era o mês que havia mudado.
Era eu.
O setembro continuava trazendo flores, pólen, dias mais compridos. As noites ainda podiam ser frias. O edredom continuava no armário, esperando o inverno. Tudo estava no lugar.
Menos tu.
Talvez seja por isso que algumas datas do calendário deixam de ser datas e passam a ser lugares.
A gente entra nelas.
Caminha por elas.
E, por alguns instantes, está novamente onde esteve.
Setembro é um desses lugares para mim.
Volto àquela metade de semana sem querer. Volto às nossas noites, ao corpo que procurava o outro lado da cama, às conversas que não precisavam chegar ao fim. Volto àquilo que éramos quando ainda não sabíamos que um dia seríamos passado.
E há uma delicadeza cruel nisso.
Porque a memória não devolve ninguém.
Ela apenas nos deixa tocar, por alguns segundos, aquilo que já não podemos tocar.
Talvez o amor seja também isso: uma espécie de desobediência ao tempo.
O calendário diz que passou.
O corpo, às vezes, não concorda.
Por isso setembro chega todos os anos.
E eu o reconheço antes mesmo de olhar para o calendário.
Está no ar, na luz diferente da manhã, no frio que já não é inverno, naquela sensação de que alguma coisa está começando.
Para todos, é primavera.
Para mim, é também aquele setembro.
O nosso.
O que antecedia o verão.
O que ainda permitia noites de edredom e proximidade.
O que não sabia que seria o último.
Talvez por isso eu não consiga odiá-lo.
Seria injusto.
Setembro não teve culpa.
Ele apenas estava lá quando a vida resolveu mudar de rumo.
E desde então carrego comigo uma certeza estranha: há perdas que não acontecem em um único dia.
A morte acontece em um instante.
A ausência, não.
A ausência aprende a chegar devagar, ocupa os meses, atravessa as estações e, quando percebemos, já conhece todos os caminhos da casa.
Até setembro.
Principalmente setembro.
O mês em que tu partiste sem saber que partias.
E eu fiquei sem saber que aquela seria a última vez em que ainda éramos dois dentro dele.
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