Quando envelhecemos, voltamos a precisar de mãos

Hoje, a caminho do escritório, uma cena muito simples me fez diminuir o passo.

Um senhor, já bastante idoso, tentava subir um pequeno degrau de um canteiro que separava a casa dele da casa do vizinho. Era apenas um degrau. Para quem passa apressado, talvez nem merecesse um olhar. Mas eu fiquei observando o esforço daquele homem para vencer uma altura que, alguns anos antes, provavelmente nem teria percebido.

Ele apoiou o corpo, procurou equilíbrio, firmou os pés e, com aquela lentidão que a idade vai impondo sem pedir licença, conseguiu passar.

Pensei que talvez ele estivesse indo à casa do vizinho para dar um bom-dia.

E essa possibilidade me tocou.

Porque, depois de certa idade, até mesmo um bom-dia pode exigir um pequeno esforço.

Não apenas físico.

Há uma espécie de mudança silenciosa que acontece quando envelhecemos. Aos poucos, deixamos de fazer tantas coisas sozinhos. Não necessariamente porque perdemos a vontade, mas porque o corpo começa a negociar conosco. Um degrau se torna mais alto. Uma sacola, mais pesada. Uma caminhada, mais longa. Um objeto no chão, mais distante.

E então começamos a depender um pouco mais dos outros.

Talvez seja justamente aí que a velhice se aproxime da infância.

A criança também precisa de mãos. Precisa de alguém que lhe alcance o que ficou alto demais, que segure sua mão para atravessar a rua, que espere enquanto ela sobe um degrau, que escute suas histórias — muitas vezes contadas pela décima vez — como se fossem novidade.

O idoso também.

Só que existe uma diferença: a criança está chegando à autonomia. O velho, muitas vezes, está começando a perdê-la.

E talvez seja por isso que essa fase da vida possa ser tão delicada.

Porque passamos décadas sendo aqueles que carregam, resolvem, cuidam, orientam, sustentam. Somos nós que ensinamos os filhos a andar, que seguramos suas mãos, que atravessamos noites em claro, que fazemos escolhas por eles quando ainda não sabem fazê-las.

Até que, um dia, percebemos que algumas dessas mãos precisam voltar para nós.

Não queremos necessariamente que façam tudo por nós.

Queremos, talvez, que estejam por perto.

Que alguém perceba que o degrau ficou alto demais.

Que alguém tenha paciência para esperar.

Que alguém pergunte: “Quer que eu ajude?”

E há uma coisa ainda mais bonita nisso tudo: envelhecer não significa deixar de desejar a vida.

Aquele homem que atravessava o canteiro talvez não estivesse fazendo nada extraordinário. Talvez estivesse apenas indo conversar com um vizinho, tomar um café, perguntar como estava a família, reclamar do tempo ou comentar alguma coisa que viu na rua.

Mas há vida nesses pequenos movimentos.

Talvez a gente se engane quando imagina que a velhice começa quando deixamos de fazer grandes coisas.

Talvez ela comece quando o mundo passa a achar que já não precisamos de pequenos cuidados.

E não é verdade.

Precisamos.

Precisamos de companhia, de conversa, de olhos que nos reconheçam. Precisamos continuar pertencendo à vida cotidiana. Precisamos ter para onde ir, mesmo que seja apenas até a casa ao lado.

E talvez exista aí outra semelhança com as crianças: tanto umas quanto outras nos ensinam que a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos.

Ela acontece no bom-dia.

No café compartilhado.

Na mão estendida.

Na espera.

No cuidado que não humilha.

No olhar que não transforma fragilidade em incapacidade.

Hoje, aquele pequeno degrau me lembrou de tudo isso.

E também me fez pensar que envelhecer é, de certa maneira, aprender novamente a receber aquilo que passamos a vida oferecendo.

A criança recebe a mão porque ainda está aprendendo a caminhar.

O idoso, porque já caminhou muito.

Talvez a diferença esteja apenas no caminho.

E talvez o que ambos nos pedem seja exatamente a mesma coisa:

um pouco de tempo,

um pouco de paciência

e alguém disposto a caminhar ao lado.

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