Sal do Meu Banquete
Eles nunca precisaram combinar nada. O que existia entre os dois foI acontecendo como certas coisas que não pedem anúncio: um costume, um acordo silencioso, um jeito de estar que dispensa explicações. Ela cozinhava porque gostava do gesto. Porque cortar legumes, ouvir a água ferver, sentir o cheiro subindo da panela dava ao dia uma forma reconhecível. Não fazia pratos elaborados. Fazia comida de sustento. Daquelas que não impressionam ninguém, mas mantêm a vida em movimento. Ele chegava sem pressa. Nunca trazendo o mundo inteiro consigo. Deixava o excesso do lado de fora: o barulho, as obrigações, os pensamentos inúteis. Entrava como quem respeita o espaço alheio. Sentava-se. Esperava. Ela servia. Ele provava. Não havia elogios grandes nem comentários técnicos. Ele comia com atenção, como se aquele instante merecesse cuidado. Às vezes, parava no meio da refeição, refletia um pouco, como quem escuta algo por dentro. — Falta — dizia. Ela não se ressentia. Nunca entend...