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Sal do Meu Banquete

  Eles nunca precisaram combinar nada. O que existia entre os dois foI acontecendo como certas coisas que não pedem anúncio: um costume, um acordo silencioso, um jeito de estar que dispensa explicações. Ela cozinhava porque gostava do gesto. Porque cortar legumes, ouvir a água ferver, sentir o cheiro subindo da panela dava ao dia uma forma reconhecível. Não fazia pratos elaborados. Fazia comida de sustento. Daquelas que não impressionam ninguém, mas mantêm a vida em movimento. Ele chegava sem pressa. Nunca trazendo o mundo inteiro consigo. Deixava o excesso do lado de fora: o barulho, as obrigações, os pensamentos inúteis. Entrava como quem respeita o espaço alheio. Sentava-se. Esperava. Ela servia. Ele provava. Não havia elogios grandes nem comentários técnicos. Ele comia com atenção, como se aquele instante merecesse cuidado. Às vezes, parava no meio da refeição, refletia um pouco, como quem escuta algo por dentro. — Falta — dizia. Ela não se ressentia. Nunca entend...

A Carta Que Não Pede Resposta

  Ela escreve na noite em que 2025 está prestes a começar. Não escreve por ritual, nem por esperança. Escreve porque há datas que afrouxam o tempo e deixam as lembranças passarem sem pedir licença. “Queria saber onde estarás nessa virada de ano, meu amor.” A frase se assenta no papel sem pressa. Não há envelope. Não há destino. A carta não quer ser enviada — quer ser mantida. Dizem que estamos entrando em 2025. Ela registra isso como quem anota algo ouvido ao longe, sem discutir. O mundo sempre falou alto demais quando um ano acaba. Ela aprendeu a escutar o que não faz alarde. As viradas retornam no mesmo ritmo da escrita. As da fazenda surgem primeiro. A casa grande tomada de vozes, crianças correndo sem direção, familiares espalhados em conversas que se cruzavam como fios soltos. Risadas altas, pratos empilhados, alguém chamando por alguém que nunca respondia. Um excesso de vida que parecia não caber em nenhum cômodo. E, ainda assim, eles dois. Os olhares se encontr...

Tudo Vai, Menos a Saudade

Cíntia aprendeu cedo que as coisas passam. Não porque alguém ensinou, mas porque foi vendo. Pessoas indo embora sem avisar. Casas sendo vendidas. Objetos quebrando. O corpo mudando. A vida empurrando. Tudo passa. Ou quase tudo. A saudade ficou. Não como lembrança bonita. Ficou como hábito. Como algo que se instala sem pedir opinião. Acorda junto, atravessa o dia, deita cansada à noite. Não faz barulho, mas ocupa. Cíntia sente isso nos momentos mais simples. Quando dobra roupa e demora demais numa camiseta que não deveria significar nada. Quando prepara café para mais de uma xícara e percebe tarde demais. Quando chega em casa e fala sozinha, só por reflexo. Não é drama. É rotina. No início, a saudade vinha com força. Doía no corpo, tirava o ar, desmontava tudo. Depois mudou de forma. Aprendeu a ficar quieta. A se misturar com os dias. Hoje ela aparece menos como dor e mais como presença fixa. Um peso conhecido. Um incômodo constante. Ela não precisa de motivos grandes. B...

Metade da Cama

Não como lembrança. Como costume. O colchão afunda um pouco mais de um lado, sempre do mesmo jeito, e ela nunca tenta corrigir. Aprendeu a reconhecer aquela inclinação como quem reconhece um desnível antigo na calçada: algo que se contorna sem pensar. De manhã, arruma a cama sem pressa. Estica o lençol até onde dá, mas para antes de alcançar a borda oposta. O travesseiro extra permanece ali, alinhado, limpo, sem função prática. Às vezes troca a fronha. Às vezes não. O gesto perdeu a intenção, mas não o movimento. O quarto não guarda sinais óbvios de ausência. Nada foi retirado às pressas. O armário ainda tem roupas que ela não mexe, não por esperança, mas porque não vê urgência. O cheiro mudou com o tempo, tornou-se indefinido, uma mistura que não pertence mais a ninguém. Mesmo assim, permanece. Durante o dia, ela vive como se vive depois. Compra pão, esquece o celular em cima da mesa, responde mensagens com frases curtas. Ri quando alguém conta algo engraçado, mas o riso não se ...

Tentando Ser Feliz Com o Que Sobrou

  Ela acordou antes do despertador. O quarto ainda estava escuro, mas o corpo já tinha desistido do sono. Ficou alguns minutos olhando o teto, esperando que algo viesse. Nada veio. Levantou-se. Na cozinha, abriu a janela só o suficiente para o ar entrar. O frio encostou no rosto e acordou o resto do corpo. Preparou o café no mesmo ritmo de sempre, sem pressa, sem cuidado especial. A colher bateu na xícara. O som ecoou mais do que devia. Ela esperou passar. Sentou-se à mesa sem fome. Bebeu o café devagar, olhando um ponto qualquer da parede. O dia começava assim: sem convite, sem anúncio. Lavou a louça logo depois. Preferia não deixar acumular. A pia limpa dava a sensação de alguma ordem, ainda que provisória. Passou um pano no balcão, ajeitou a cadeira fora do lugar, abriu a porta do quarto para ventilar. Gestos pequenos, quase automáticos. Vestiu-se com a primeira roupa que encontrou. Não pensou em combinação. Pensar nisso parecia excesso. Amarrou o sapato com força demais...

2026

  2026   Ninguém entra em um ano novo ileso. Atravessa-se. Com o corpo inteiro — e com tudo o que ele já aprendeu a suportar. Chamam 2026 de ano um. Como se fosse começo. Mas talvez seja continuidade em outro tom. Um ano que não pede juventude, pede densidade. Mudança não é gesto leve. Não é ímpeto. Não é promessa. Só muda quem sustenta o peso do que viveu. Quem aprendeu a andar com o que perdeu sem transformar isso em desculpa. Há coragem nisso — uma coragem silenciosa, que não se anuncia. Carregamos números. Muitos. Anos, datas, marcas invisíveis no corpo e na memória. E há quem tente se esconder neles, como se o tempo fosse álibi. Como se dizer “já passou” bastasse. Mas nesse tanto de número que se carrega mora também outra coisa: sabedoria. Não a sabedoria pronta, organizada — mas a que sabe esperar, a que reconhece limites, a que não confunde pressa com vida. Seria fácil — e talvez covarde — entregar às mãos jovens a tarefa inteira de mudar o mundo. Como...

Nossas Noites

Eles se encontravam quase sempre no mesmo bar. Não porque fosse especial — não era. Um balcão gasto, luz amarelada demais para embelezar alguém, música baixa que ninguém escutava direito. Um bar qualquer, desses que ficam abertos quando a cidade já desistiu do dia. Ela costumava chegar depois do plantão. Enfermeira. O corpo ainda atento, como se pudesse ser chamado a qualquer momento. Trazia nos ombros o cansaço de quem passou horas medindo dores alheias. O cabelo preso sem cuidado, a pele limpa, o olhar firme. Havia nela uma concentração silenciosa, uma espécie de calma alerta que chamava atenção sem pedir. Ele geralmente já estava ali. Professor. O tipo que passa o dia explicando o mundo e à noite prefere observá-lo em silêncio. Bebia devagar. Tinha gestos contidos, postura reta demais para um bar tão comum. As mãos grandes descansavam sobre o copo como se segurassem um pensamento. Falava pouco. Sorria menos ainda. Não se buscavam. Se reconheciam. Às vezes o encontro começa...