Tentando Ser Feliz Com o Que Sobrou
Ela acordou antes do despertador. O quarto ainda estava escuro, mas o corpo já tinha desistido do sono. Ficou alguns minutos olhando o teto, esperando que algo viesse. Nada veio. Levantou-se.
Na cozinha, abriu a
janela só o suficiente para o ar entrar. O frio encostou no rosto e acordou o
resto do corpo. Preparou o café no mesmo ritmo de sempre, sem pressa, sem
cuidado especial. A colher bateu na xícara. O som ecoou mais do que devia. Ela
esperou passar.
Sentou-se à mesa sem
fome. Bebeu o café devagar, olhando um ponto qualquer da parede. O dia começava
assim: sem convite, sem anúncio.
Lavou a louça logo
depois. Preferia não deixar acumular. A pia limpa dava a sensação de alguma
ordem, ainda que provisória. Passou um pano no balcão, ajeitou a cadeira fora
do lugar, abriu a porta do quarto para ventilar. Gestos pequenos, quase
automáticos.
Vestiu-se com a primeira
roupa que encontrou. Não pensou em combinação. Pensar nisso parecia excesso.
Amarrou o sapato com força demais, desamarrou, refez. O corpo demorava a
acertar a medida.
Saiu de casa no meio da
manhã. Escolheu o caminho mais longo, sem saber por quê. As ruas estavam
mornas, algumas pessoas caminhavam apressadas, outras paradas demais. Ela
seguia num meio-termo. Não tinha pressa, mas também não passeava.
Entrou no mercado. Pegou
poucas coisas: pão, leite, frutas. Parou diante de uma prateleira sem saber
exatamente o que procurava. Ficou ali alguns segundos, até perceber que era
tempo demais. Pegou o que precisava e foi para a fila.
Esperar ainda a cansava.
Mudou o peso do corpo de uma perna para outra. Observou as mãos da pessoa à
frente, o jeito de segurar a sacola, a conversa baixa no caixa. Pagou, guardou
as compras, saiu.
O sol estava mais alto.
Ela sentiu um cansaço que não vinha do esforço. Parou um instante na calçada,
apoiou a sacola no chão, respirou. Depois seguiu.
De volta à casa, guardou
as coisas sem ordem precisa. Lavou as frutas, deixou algumas sobre a mesa.
Abriu uma gaveta, fechou. O silêncio era espesso naquela hora do dia.
Sentou-se um pouco no
sofá, sem ligar nada. O corpo afundou mais do que esperava. Ficou ali, olhando
o chão, até o desconforto crescer. Levantou-se.
À tarde, dobrou a roupa.
Passou mais tempo do que precisava em cada peça, como se o gesto pedisse
atenção total. O cheiro do sabão ficou nas mãos. Gostou disso.
Havia algo dentro dela
que ainda não tinha cedido. Ela sabia. Não sabia onde ficava, nem como acessar.
Procurava sem método: levantando quando dava vontade de ficar insistindo já que
o corpo pedia pausa. Não poupava
energia. Não sabia fazer diferente.
No meio da tarde,
sentou-se outra vez. O cansaço veio inteiro. Um peso nos ombros, uma vontade
curta de fechar os olhos. Fechou. Abriu logo depois. Não queria dormir.
A lembrança veio sem
forma definida. Não era imagem, nem frase. Era só um ajuste interno, um
deslocamento breve. Ela reconheceu e deixou passar. Não tocou.
Quando a luz começou a
mudar, levantou-se para fechar as janelas. O dia escurecia devagar. Preparou
algo simples para comer. Comeu sem atenção.
À noite, apagou a luz da
sala e ficou sentada no escuro. A casa fazia pequenos ruídos: a madeira, o
prédio, a rua distante. Ela respirava no mesmo ritmo. Ficou ali até o corpo
pedir movimento.
Acendeu a luz. Organizou
o pouco que havia fora do lugar. Deitou-se.
O dia tinha passado.
Ela também.
Silvia Marchiori Buss
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