Metade da Cama
Não como lembrança. Como costume. O colchão afunda um pouco mais de um lado, sempre do mesmo jeito, e ela nunca tenta corrigir. Aprendeu a reconhecer aquela inclinação como quem reconhece um desnível antigo na calçada: algo que se contorna sem pensar.
De manhã, arruma a cama
sem pressa. Estica o lençol até onde dá, mas para antes de alcançar a borda
oposta. O travesseiro extra permanece ali, alinhado, limpo, sem função prática.
Às vezes troca a fronha. Às vezes não. O gesto perdeu a intenção, mas não o
movimento.
O quarto não guarda
sinais óbvios de ausência. Nada foi retirado às pressas. O armário ainda tem
roupas que ela não mexe, não por esperança, mas porque não vê urgência. O
cheiro mudou com o tempo, tornou-se indefinido, uma mistura que não pertence
mais a ninguém. Mesmo assim, permanece.
Durante o dia, ela vive
como se vive depois. Compra pão, esquece o celular em cima da mesa, responde
mensagens com frases curtas. Ri quando alguém conta algo engraçado, mas o riso
não se espalha. Volta para casa antes de escurecer. Gosta de chegar enquanto
ainda há luz, como se isso ajudasse a manter tudo em ordem.
À noite, o corpo retoma
o comando. Ela se troca no mesmo ritmo de sempre, apaga as luzes do corredor,
fecha a porta do quarto. Senta-se na beira da cama por um instante — não para
pensar, apenas para esperar o corpo entender que é hora. Deita devagar, respeitando
uma distância que nunca precisou ser combinada. Estende a mão para o lado
oposto na chance de sentir outra que a segure.
O lençol fica levemente
esticado do lado esquerdo. O colchão cede um pouco, quase nada, mas o
suficiente para que ela ajuste a própria posição. Apaga a luz sem olhar.
Vira-se de lado, deixando espaço. Dorme assim, como aprendeu a dormir. Ele
ainda ocupa a metade da cama.
Silvia Marchiori Buss
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