Sal do Meu Banquete
Eles nunca precisaram combinar nada.
O que existia entre os dois foI acontecendo como certas coisas que não pedem
anúncio: um costume, um acordo silencioso, um jeito de estar que dispensa
explicações.
Ela cozinhava porque
gostava do gesto. Porque cortar legumes, ouvir a água ferver, sentir o cheiro
subindo da panela dava ao dia uma forma reconhecível. Não fazia pratos
elaborados. Fazia comida de sustento. Daquelas que não impressionam ninguém,
mas mantêm a vida em movimento.
Ele chegava sem pressa.
Nunca trazendo o mundo inteiro consigo. Deixava o excesso do lado de fora: o
barulho, as obrigações, os pensamentos inúteis. Entrava como quem respeita o
espaço alheio. Sentava-se. Esperava.
Ela servia.
Ele provava.
Não havia elogios
grandes nem comentários técnicos. Ele comia com atenção, como se aquele
instante merecesse cuidado. Às vezes, parava no meio da refeição, refletia um
pouco, como quem escuta algo por dentro.
— Falta — dizia.
Ela não se ressentia.
Nunca entendeu aquilo como crítica. Colocava o saleiro perto dele, com
naturalidade. Era quase um ritual.
Ele ajustava o sal com
precisão. Um gesto pequeno, contido. Mexia devagar. Provava de novo. E então
continuava a comer, como se nada mais precisasse ser dito.
O silêncio que vinha
depois não era vazio. Era um silêncio habitado. Um silêncio que não exigia
conversa para se sustentar. Cada um ali, inteiro, sem precisar provar nada ao
outro.
Com o tempo, ela
percebeu que aquele gesto se repetia fora da cozinha. Quando os dias vinham
difíceis, quando a vida parecia pálida demais, era ele quem ajustava o tom. Não
com palavras, mas com presença. Ele não resolvia. Não prometia que tudo
passaria. Apenas permanecia até que o peso diminuísse um pouco.
Mas havia dias em que
era ela quem fazia o mesmo. Quando ele chegava mais quieto, quando o corpo
denunciava um cansaço que ele não nomeava, ela não perguntava demais. Preparava
o jantar. Sentava-se perto. Oferecia o gesto exato. Era ela quem dava sabor ao
que ele não conseguia sentir sozinho.
Foi assim que ela
entendeu:
eles se temperavam.
Não havia cobrança.
Nenhuma tentativa de salvar o outro. Cada um cuidava do próprio prato, mas
deixava espaço para que o outro ajustasse quando fosse preciso. Sem excesso.
Sem falta.
Houve desencontros,
claro. Dias em que a conversa não alcançava o lugar certo. Dias em que o
silêncio pesava mais do que devia. Mesmo assim, ninguém ia embora. Eles sabiam
esperar. Sabiam que nem todo prato acerta de primeira.
À noite, enquanto
recolhiam a mesa, ela percebeu que aquele amor não precisava de provas. Não
precisava ser afirmado. Existia como o sal: discreto, essencial, invisível à
primeira vista.
Eles não eram o centro
da vida um do outro.
E talvez por isso funcionassem.
Eram apoio. Ajuste.
Medida.
Cada um, à sua maneira,
era o sal do banquete do outro.
Não o excesso que domina o sabor,
mas o detalhe que faz a vida, mesmo simples, valer a pena ser vivida.
Silvia Marchiori Buss
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