Tudo Vai, Menos a Saudade

Cíntia aprendeu cedo que as coisas passam.

Não porque alguém ensinou, mas porque foi vendo. Pessoas indo embora sem avisar. Casas sendo vendidas. Objetos quebrando. O corpo mudando. A vida empurrando.

Tudo passa.
Ou quase tudo.

A saudade ficou.

Não como lembrança bonita. Ficou como hábito. Como algo que se instala sem pedir opinião. Acorda junto, atravessa o dia, deita cansada à noite. Não faz barulho, mas ocupa.

Cíntia sente isso nos momentos mais simples. Quando dobra roupa e demora demais numa camiseta que não deveria significar nada. Quando prepara café para mais de uma xícara e percebe tarde demais. Quando chega em casa e fala sozinha, só por reflexo.

Não é drama. É rotina.

No início, a saudade vinha com força. Doía no corpo, tirava o ar, desmontava tudo. Depois mudou de forma. Aprendeu a ficar quieta. A se misturar com os dias. Hoje ela aparece menos como dor e mais como presença fixa. Um peso conhecido. Um incômodo constante.

Ela não precisa de motivos grandes. Basta um silêncio fora do lugar. Um horário vazio. Um gesto que ninguém mais percebe. A saudade não avisa quando vem. Também não vai embora quando Cíntia pede.

As pessoas dizem que o tempo ajuda. E ajuda mesmo. Ajuda a levantar da cama. A trabalhar. A conversar. A cumprir compromissos. O tempo ensina a funcionar. Mas não ensina a esquecer.

Porque esquecer não acontece quando o que se perdeu foi vivido de verdade.

Cíntia segue. Faz o que precisa ser feito. Resolve coisas práticas. Ri quando dá, mais por educação do que por vontade. Chora quando ninguém está vendo. Não espera grandes explicações da vida.

A saudade não exige nada dela. Não pede lágrimas. Não pede homenagens. Só fica. Como quem sabe que tem direito.

Tudo vai.
O dia vai.
As pessoas vão.
A dor muda de lugar.

Mas a saudade não vai.

Ela aprende a viver com isso. Não porque aceitou. Mas porque não teve escolha.

E segue. Com a saudade junto. Sempre junto.

 

Silvia Marchiori Buss

  

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