A Carta Que Não Pede Resposta
Ela escreve na noite em que 2025 está prestes a começar. Não escreve por ritual, nem por esperança. Escreve porque há datas que afrouxam o tempo e deixam as lembranças passarem sem pedir licença.
“Queria saber onde
estarás nessa virada de ano, meu amor.”
A frase se assenta no
papel sem pressa. Não há envelope. Não há destino. A carta não quer ser enviada
— quer ser mantida.
Dizem que estamos
entrando em 2025. Ela registra isso como quem anota algo ouvido ao longe, sem
discutir. O mundo sempre falou alto demais quando um ano acaba. Ela aprendeu a
escutar o que não faz alarde.
As viradas retornam no
mesmo ritmo da escrita.
As da fazenda surgem
primeiro. A casa grande tomada de vozes, crianças correndo sem direção,
familiares espalhados em conversas que se cruzavam como fios soltos. Risadas
altas, pratos empilhados, alguém chamando por alguém que nunca respondia. Um
excesso de vida que parecia não caber em nenhum cômodo.
E, ainda assim, eles
dois.
Os olhares se
encontravam no meio da sala, atravessando corpos, cadeiras, barulho. Bastava um
segundo. Um gesto mínimo. Um sorriso que ninguém mais percebia. O mundo seguia
cheio, ruidoso, mas ali — naquele intervalo invisível — eram só eles. Sempre
nesse mesmo ritmo: presentes sem se agarrar, juntos sem precisar se esconder.
Depois, vieram as
viradas viajando.
Ela lembra do ano em que
passaram a virada em Veneza. Chegaram à Praça de São Marcos sem saber da
tradição. Sem aviso. Sem preparo. A meia-noite se aproximava quando começou o
som seco dos copos se quebrando no chão. Taças arremessadas, estilhaços brilhando
sob as luzes, uma celebração que parecia descontrole.
Ela, de casaco amarelo,
sentindo o frio na pele do pescoço, pulava para fugir dos cacos. Desviava,
girava, improvisava passos estranhos entre um salto e outro. Não era dança, mas
parecia. Ele ria. Ria de verdade, daquele riso solto que reconhecia o mundo
como espetáculo. Observava-a com um encantamento tranquilo, como se dissesse
sem palavras: olha você aí, viva.
Ela lembra do som dos
estilhaços, mas lembra mais do riso dele. Daquele riso que fazia tudo parecer
possível, mesmo no caos.
Houve outras viradas em
que não havia praça, nem multidão, nem surpresa. Eram só os dois. Cansados. Já
atravessados por tantas festas desde o Natal que o corpo pedia repouso. Ouviam
os fogos à distância, a balbúrdia de algum lugar que não os convocava mais.
Nessas noites, se
acomodavam no abraço “ mais lar” que podia existir. Um abraço que não apertava,
não prendia, apenas sustentava. Um abraço que parecia um palácio — amplo,
silencioso, seguro. Dentro dele, o ano virava sem necessidade de testemunhas.
Ela escreve que agora
não sabe onde ele estará nessa virada para 2025. Se haverá barulho, viagem,
gente em volta. Se a noite será cheia ou vazia. Não pergunta diretamente. A
carta não pede respostas.
Escreve apenas que,
quando o relógio virar, todas essas cenas se alinharão dentro dela: a fazenda
cheia de vozes, a praça quebrando copos, o abraço-palácio no meio da noite
cansada. Tudo coexistindo, sem disputa.
Dobra o papel com
cuidado. Guarda na gaveta onde ficam as coisas que não precisam ser resolvidas.
Quando a virada chegar,
ela não fará pedidos. Apenas fechará os olhos por um instante.
Em algum lugar — ela
sabe — ele estará.
E quem sabe onde estarei eu na outra virada, quando o tempo, cansado de
prometer, decida apenas seguir. Talvez chamem de ano um. Talvez digam que é o
ano da mudança. Ela seguirá, como sempre seguiu: com o que ficou, com o que
foi, com o que ainda pulsa.
Silvia Marchiori Buss
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