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O Pequeno Espaço Entre Dois Tempos

E assim, entre um mês que guarda e outro que inaugura, ficamos nós — meio cansados, meio curiosos, equilibrando o que fomos e o que talvez ainda sejamos. Não há certezas nesse intervalo. Apenas um chão que muda de temperatura e uma luz que se acomoda devagar no parapeito dos dias. Dezembro não leva tudo, janeiro não traz tudo; eles apenas trocam as chaves da mesma porta. O resto… o resto a gente descobre caminhando, quando o calendário nos observa em silêncio, esperando para ver o que faremos com o tempo que ficou. Dezembro, esse velho conhecido, costuma chegar com o passo arrastado de quem carrega o peso das promessas não cumpridas. É como um arquivo vivo, guardando fichas que a gente jurou preencher. Planos que ficaram adormecidos, intenções que se perderam entre uma terça e outra, sonhos que ruminaram em silêncio, tímidos demais para se pronunciar. Dezembro sabe de tudo isso. E não levanta uma sobrancelha sequer. Ele apenas assente com o cansaço de quem já viu esse espetáculo muit...

De Braço Com Meu Amor

Ainda sinto teu braço deslizando no meu quando desço a escadaria da Rue de la Barre. É um reflexo do corpo, não da mente. O cotovelo se inclina sozinho, como se houvesse ali um espaço reservado que ninguém percebe, mas que ainda me organiza por dentro. Lausanne segue cheia. Os estudantes passam correndo, o sino da catedral marca horas que não peço, um ciclista quase me toca. Dou um passo para o lado, e a memória do teu braço faz o movimento antes de mim — um gesto automático, como se tua presença tivesse deixado instruções invisíveis no meu corpo. Caminho até o Parc de Milan. As crianças correm no gramado, os pais conversam distraídos. Sento no banco de madeira, o mesmo onde às vezes descansávamos. O vento passa pela manga do meu casaco, num ângulo que teimava em ser sempre o teu lado. A sensação não traz respostas; apenas permanece ali, com a discrição de quem não precisa anunciar nada. Levanto e sigo até o mirante. O Léman está liso hoje, quase parado. A luz bate na á...

A Mulher que Guardava Restos

  No prédio inteiro, só uma pessoa deixava a lixeira do corredor aberta: ela. Segundo os vizinhos, esse era o sintoma. Segundo eles, era assim que começava — um pequeno descuido, um cheiro incômodo, uma atitude que denuncia a natureza “podre” de alguém. Ela nunca discutia. Pegava o comentário, guardava no bolso e seguia. O porteiro a cumprimentava com educação estudada, dessas que evitam contato visual. A síndica sempre a observava com uma expressão de quem fareja algo errado. Não havia um fato concreto contra ela. Nenhum escândalo, nenhuma história cabeluda. O problema era mais sutil: ela não se enquadrava no perfil higienizado daquele condomínio de gente que mede caráter por silêncio e tapetes limpos. A alcunha começou numa assembleia: — Tem uma moradora que é fruta podre. Se deixar, contamina o resto. Era ela. Claro que era. Aos poucos, virou o lugar oficial de descarte de todas as culpas alheias. O elevador enguiçou? Culpa dela. A câmera queimou? Culpa dela....

O Calor do Teu Olhar

Ela carregava um frio escondido — desses que começam por dentro e só quem conhece reconhece. Caminhava pela tarde como quem tateia o ar, à procura de um ponto de luz que não sabia nomear. Sentou-se perto do rio. A água seguia seu rumo, indiferente, levando folhas e reflexos sem perguntar nada. Era sempre ali que a memória chegava primeiro: pelas pálpebras, pelas frestas, pelo silêncio. E veio. Tua imagem. Melhor dizendo: o instante exato em que teus olhos pousavam nos dela, como quem acende alguma coisa que ainda não sabe se quer acender. Havia calor ali. Simples, direto, inteiro. Ela respirou fundo, como quem tenta guardar dentro do peito aquilo que já foi abraçado pela distância. A tarde inclinava-se para a noite, e o vento soprava com o desinteresse de quem nunca soube consolar. Queria teu olhar. Não o objeto da saudade, mas o gesto — aquele breve milagre de presença que se formava no encontro das pupilas. Aquele brilho teimoso que, por segundos, suspendia o mundo. ...

Recolhendo os Pedaços

Lívia percebeu que precisava recolher os pedaços numa manhã sem cor, quando a luz entrou pela janela como quem não quer se comprometer. Havia meses ela circulava pela própria vida como uma visitante, movendo-se devagar, furtiva, tentando não tocar em nada que pudesse quebrar ainda mais o que já estava em ruínas. Sentava-se no sofá e via os dias deslizarem, não como quem vive, mas como quem assiste. A sensação era a de estar na última fileira de um cinema vazio: o filme avançando, e ela ali, imóvel, sabendo que nenhuma cena podia ser alterada — só revista, nunca corrigida. Desde que ele partira, um estalo seco atravessara sua existência. Não era apenas ausência; era uma fratura. O mundo de Lívia, antes inteiro, espalhara-se pelo chão em fragmentos pontiagudos. Cada pedaço, quando visto de perto, apontava para um tempo que já não existia — uma cozinha com cheiro de café, um riso que interrompia o silêncio, o jeito dele de encostar a mão nas costas dela ao passar pela sala, como quem ...

Aquilo Que Caminhava Atrás

A tristeza parecia devorá-la viva. Não de um jeito explosivo, desses que deixam os olhos vermelhos e o corpo trêmulo. Era uma devoração paciente, quase delicada, como se alguém mordesse por dentro as paredes do seu silêncio. Ela seguia o dia com uma espécie de economia emocional: passos que não faziam barulho, palavras medidas como quem pesa moedas raras. A cidade a engolia num fluxo de ônibus, vitrines, buzinas e rostos rápidos, e ela deixava ser levada, porque resistir exigia uma força que não tinha mais. Algumas pessoas notavam que havia algo errado. Outras preferiam não notar — como sempre. Numa tarde de vento frio, enquanto esperava o semáforo abrir, sentiu uma mudança mínima no ar: não um frio, mas uma proximidade. Algo caminhava atrás dela. O som era discreto, quase educado, como se pedisse licença para existir. Ela não virou. Virar seria admitir. Seguiu em frente. O som acompanhou. Na vitrine de uma loja fechada, viu seu reflexo — e viu também outra coisa: uma d...

Por Que Deixei...

Aninha passava os dias se debatendo entre o que fez e o que deveria ter feito, entre o que disse e o que poderia ter dito. Havia manhãs inteiras em que ela amanhecia dentro desse labirinto — um corredor estreito onde as perguntas ecoavam mais alto que qualquer resposta. O pior é que ela sabia: não existia resposta. Existia apenas o tempo. Aquele tempo que ela achou, com a inocência dos que amam sem imaginar o fim, que sempre teria de sobra. Durante tantos anos, eles deixaram momentos para depois. Pequenos: o café que podiam ter tomado devagar, a conversa que ficou para “quando der”, o toque que ela esqueceu porque estava cansada, a risada que ele segurou porque tinha pressa, o abraço que os dois acharam que poderiam dar no fim do dia — e o fim do dia veio, mas não o abraço. Outros momentos eram grandes: viagens adiadas, segredos não contados, planos que ficaram pendurados no varal da vida, balançando ao vento, esperando uma coragem que não veio. Por um motivo ou outro. Ou por ...