De Braço Com Meu Amor

Ainda sinto teu braço deslizando no meu quando desço a escadaria da Rue de la Barre.

É um reflexo do corpo, não da mente.
O cotovelo se inclina sozinho, como se houvesse ali um espaço reservado que ninguém percebe, mas que ainda me organiza por dentro.

Lausanne segue cheia.
Os estudantes passam correndo, o sino da catedral marca horas que não peço, um ciclista quase me toca.
Dou um passo para o lado, e a memória do teu braço faz o movimento antes de mim — um gesto automático, como se tua presença tivesse deixado instruções invisíveis no meu corpo.

Caminho até o Parc de Milan.
As crianças correm no gramado, os pais conversam distraídos.
Sento no banco de madeira, o mesmo onde às vezes descansávamos.
O vento passa pela manga do meu casaco, num ângulo que teimava em ser sempre o teu lado.
A sensação não traz respostas; apenas permanece ali, com a discrição de quem não precisa anunciar nada.

Levanto e sigo até o mirante.
O Léman está liso hoje, quase parado.
A luz bate na água como se procurasse alguma superfície para se apoiar.
Apoio meu braço no parapeito, e a pele lembra do peso do teu.
Não reproduz.
Lembra.
É diferente. Mais silencioso.

Caminho mais um pouco.
A cidade faz seus barulhos, seus passos, seus atrasos.
Ninguém olha, ninguém sabe.
E eu continuo sentindo o espaço ao meu lado se ajustar ao passo que já não é duplo, mas que guarda o desenho de quando era.

Não penso em definições.
Não procuro analogias.
Nem tento dar nome ao que acontece.

Apenas caminho.
E o braço ao lado acompanha — não como explicação, não como promessa, não como verdade absoluta.
Acompanha como qualquer coisa que insiste em permanecer mesmo quando tudo o que era concreto mudou de lugar.

A caminhada segue.
Sem ponto final.

 

Silvia Marchiori Buss

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