O Pequeno Espaço Entre Dois Tempos

E assim, entre um mês que guarda e outro que inaugura, ficamos nós — meio cansados, meio curiosos, equilibrando o que fomos e o que talvez ainda sejamos. Não há certezas nesse intervalo. Apenas um chão que muda de temperatura e uma luz que se acomoda devagar no parapeito dos dias. Dezembro não leva tudo, janeiro não traz tudo; eles apenas trocam as chaves da mesma porta. O resto… o resto a gente descobre caminhando, quando o calendário nos observa em silêncio, esperando para ver o que faremos com o tempo que ficou.

Dezembro, esse velho conhecido, costuma chegar com o passo arrastado de quem carrega o peso das promessas não cumpridas. É como um arquivo vivo, guardando fichas que a gente jurou preencher. Planos que ficaram adormecidos, intenções que se perderam entre uma terça e outra, sonhos que ruminaram em silêncio, tímidos demais para se pronunciar. Dezembro sabe de tudo isso. E não levanta uma sobrancelha sequer. Ele apenas assente com o cansaço de quem já viu esse espetáculo muitas vezes.

É um mês que fala pouco, mas diz muito. Parece andar pela casa recolhendo os rastros do que deixamos pelo caminho: uma esperança esquecida atrás da porta, uma coragem que não chegou a ser usada, um medo que se instalou no sofá como se fosse parte da mobília. Dezembro é o zelador dos nossos atrasos, o guardião de nossas desistências provisórias. Ele não julga — só testemunha.

E enquanto dezembro começa a fechar suas janelas, janeiro ainda está do lado de fora, tateando o bolso em busca da chave certa. Ele não chega como um herói empunhando bandeiras; chega como alguém que acende um abajur no meio da madrugada. Janeiro tem esse ar de começo tímido, de quem sabe que qualquer palavra dita cedo demais perde a força. Ele se aproxima aos poucos, como quem nos oferece um copo d’água depois de um ano inteiro tentando correr.

Para alguns, janeiro é só mais um bloco no calendário. Para outros, é uma espécie de clareira — o pedaço de mata onde finalmente a luz encosta no chão. Não promete transformação nem exige confissões. Ele só abre espaço. E, às vezes, espaço é tudo o que falta para uma vontade antiga respirar de novo.

Entre esses dois meses — um que apaga as luzes e outro que abre as cortinas — existe um território que não está desenhado nos mapas. Um território feito de hesitação, de pequenos gestos, de pensamentos que ainda não sabem se querem brotar. É ali que habitamos agora. Nem mais o ano que foi, nem ainda o ano que será.

E talvez seja justamente nessa travessia que alguma coisa silenciosa aconteça. Não um recomeço grandioso, não uma virada épica. Apenas a possibilidade — essa que não faz alarde — de existir de outro jeito. Mesmo que seja apenas um detalhe, uma mudança de ritmo, um desvio de meio centímetro na rota antiga.

O tempo, esse velho dramaturgo, gosta de nos observar nessas passagens estreitas. Dezembro e janeiro apenas se cumprimentam na portaria. O que virá depois… o que virá depois é terreno movediço, cheio de brechas e pequenos brilhos. É lá que os próximos passos se escondem, esperando que a gente tenha coragem de ouvi-los.

 

Silvia Marchiori Buss

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