Entre o Vinho e o Silêncio
Era fim de tarde quando Helena chegou ao pequeno restaurante à beira do lago. O vento brincava com o lenço em seu pescoço, e o céu, manchado de lilás, parecia respirar junto dela. Sentou-se à mesa de sempre — a do canto, de onde se via o reflexo das montanhas no espelho d’água. Tirou os grandes óculos escuros, retirou o lenço de seda, que deslizou feito uma carícia em seu pescoço. Pediu um vinho tinto — o mesmo de todas as quintas — e esperou. Ele chegou com o atraso habitual e o mesmo sorriso desarmante. — Achei que hoje você não viria — disse ela, fingindo indiferença. — E perder a chance de ver teu olhar antes do pôr do sol? — respondeu, sentando-se devagar. Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Não era um silêncio incômodo; era o tipo de silêncio que carrega o que as palavras já não conseguem dizer. O garçom trouxe o vinho, e suas mãos se tocaram por acaso ao alcançarem a garrafa. Helena sentiu o calor subir pelos dedos, o sangue pulsar em ritmo de espera. — Voc...