Escamas do Corpo
Gisele já não se reconhecia no espelho.
A mulher que um dia sorria de volta agora lhe devolvia um rosto gasto, sem cor,
sem brilho — como flor arrancada da terra, sobrevivendo no ar seco da ausência.
Há muito a seiva do amor deixara de circular em suas veias.
Aos setenta anos, Gisele foi “trocada”.
O marido partiu, levando consigo o pouco de ilusão que restava.
Ficou a casa — grande demais para uma só dor — e o silêncio que parecia zombar
dela.
Ele se fora num sábado qualquer, o mesmo dia em que ela
voltava da caminhada de sempre, com passos leves e esperança acesa. Encontrou-o
com as malas prontas, o olhar já distante, o corpo rejuvenescido por uma
euforia que não lhe pertencia mais.
Disse apenas: “Eu estou indo.”
E foi.
Desde então, o tempo parou.
O espelho tornou-se inimigo.
O ar pesava, a comida tinha gosto de nada.
Chorava sem hora, sem motivo, e sentia o peito doer como se o coração tivesse
esquecido o próprio compasso.
Os filhos tentavam curá-la, mas não havia remédio para o
abandono.
O que doía não era só a perda do marido, era a perda de si mesma — a mulher que
se moldara para caber no amor de outro e agora não sabia mais onde terminava o
“nós” e começava o “eu”.
Cobriu os espelhos com lençóis.
Encostou móveis, fechou cortinas.
Era como se quisesse esconder-se de si, proteger-se da própria imagem.
Mas as escamas começaram a incomodar.
E, um dia, ao tocar o rosto, percebeu que o que julgava pele era couraça.
Cada lágrima que escorria levava uma escama embora.
Cada respiração que insistia em voltar lhe devolvia um pouco de ar.
E Gisele, pouco a pouco, foi despindo-se das camadas.
Retirou o luto, o medo, o costume de esperar.
Destapou os espelhos, arrastou os móveis, abriu as janelas.
A luz entrou.
E com ela, a mulher — a que existia antes de qualquer amor, a que sempre esteve
ali, adormecida sob a pele das escamas.
Gisele, enfim, renascia.
Não como flor colhida, mas como raiz que volta a procurar a terra.
Silvia Marchiori Buss
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