Entre o Vinho e o Silêncio

Era fim de tarde quando Helena chegou ao pequeno restaurante à beira do lago. O vento brincava com o lenço em seu pescoço, e o céu, manchado de lilás, parecia respirar junto dela.

Sentou-se à mesa de sempre — a do canto, de onde se via o reflexo das montanhas no espelho d’água. Tirou os grandes óculos escuros, retirou o lenço de seda, que deslizou feito uma carícia em seu pescoço. Pediu um vinho tinto — o mesmo de todas as quintas — e esperou.

Ele chegou com o atraso habitual e o mesmo sorriso desarmante.
— Achei que hoje você não viria — disse ela, fingindo indiferença.
— E perder a chance de ver teu olhar antes do pôr do sol? — respondeu, sentando-se devagar.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos. Não era um silêncio incômodo; era o tipo de silêncio que carrega o que as palavras já não conseguem dizer.
O garçom trouxe o vinho, e suas mãos se tocaram por acaso ao alcançarem a garrafa. Helena sentiu o calor subir pelos dedos, o sangue pulsar em ritmo de espera.

— Você sempre deixa o vinho respirar — ele observou.
— E você nunca tem paciência pra esperar.
— Tenho, quando vale a pena.

Ela sorriu, olhando-o nos olhos.
O tempo parecia suspenso, como se o mundo inteiro coubesse entre o tilintar das taças e o som suave do lago lá fora.

Depois do segundo copo, o riso veio fácil.
Depois do terceiro, o toque se alongou.
E, quando o garçom já recolhia as últimas mesas, ela passou os dedos pelo braço dele, num gesto quase inocente — mas não era.
Levantaram-se sem pressa.

Do lado de fora, o ar da noite tinha cheiro de chuva e vinho.
Ele acendeu um cigarro, e ela tomou um trago, sem pedir.
O fogo da ponta iluminou o rosto dela por um instante — e foi o bastante.

O beijo veio sem aviso: quente, imperfeito, real.
Durou o tempo exato entre um raio e um trovão.
Quando se afastaram, não havia promessa alguma — só o gosto de um desejo adiado por tempo demais.

— Até quando? — ele perguntou, a voz rouca.
— Até o silêncio acabar — respondeu.

E se afastou, sem olhar pra trás.
Ele ficou ali, parado, vendo a silhueta dela desaparecer entre as luzes da rua, levando consigo o resto do vinho — e tudo o que nunca se disse.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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