Quando a Alma Acorda
Durante anos, ela acreditou que viver era apenas suportar o dia que vinha e se deitar à noite para esperar o próximo. Dormir parecia um gesto de desistência provisória, uma forma de entregar o corpo à sombra, esperando que o amanhã resolvesse o que a consciência não podia. Acordar, por sua vez, era quase automático — abrir os olhos, erguer-se, obedecer ao ritmo que o mundo impunha.
Mas havia algo que o tempo,
em sua repetição silenciosa, ensinava sem palavras: tanto o dormir quanto o
acordar exigem coragem.
É preciso coragem para
dormir, porque ao fechar os olhos aceitamos o mergulho no desconhecido. Abrimos
mão do controle, deixamos que a noite carregue nossos medos, devolvendo-os
transformados em sonhos, distorções ou silêncios sem rosto. Dormir é confiar no
retorno, acreditar que ao despertar o mundo ainda estará lá, inteiro, esperando
por nós.
E é preciso coragem para
acordar, porque a claridade não perdoa. Ao despertar, as dores guardadas nos
chamam pelo nome, os vazios se apresentam de novo, as perdas exigem lugar ao
lado da vida que insiste em continuar. Acordar é mais do que levantar-se: é
enfrentar a nitidez que o escuro ocultava.
Foi então que ela percebeu
que a vida se revela justamente no espaço entre essas duas coragens. Não no
puro adormecer, nem no simples acordar, mas no intervalo vivo em que se escolhe
permanecer. Esse respiro de tempo, tão frágil e tão imenso, é onde a alma
desperta.
E quando a alma acorda,
tudo se redesenha. O café da manhã deixa de ser hábito e se transforma em
ritual. O vento na cortina não é apenas vento, mas um convite ao movimento. O
silêncio, antes temido, revela-se cheio de vozes secretas. Nada é banal. Nada é
apenas o que parece.
A alma desperta não permite
automatismos. Ela obriga a olhar de frente para o que antes era evitado: o peso
das memórias, o susto da finitude, a beleza escondida até no que fere. Ela não
concede anestesia — convoca presença.
O mundo, lá fora,
continuava apressado, indiferente. Mas dentro dela algo acendia uma chama
discreta e firme.
Não era sonho. Não era
vigília.
Era coragem — a coragem de existir nesse intervalo.
E ali, exatamente ali, a alma respirava desperta.
Silvia Marchiori Buss
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