Até no Inferno

— Eu vou atrás de ti até no inferno.

Foi o que eu disse, e juro que não era força de expressão.

É que tu sabes: quando alguém jura vingança de copo na mão e olhos marejados, geralmente acorda no outro dia dizendo “besteira, coisa de momento”. Mas eu não. Eu não sou dessas que engolem veneno e fingem que era vinho.

Naquela noite, no bar da esquina, eu vi tudo. Vi quando tu, minha amiga de alma — sim, tu mesma — encostaste tua boca na dele com a naturalidade de quem prova um doce que não devia, mas gosta. O mais triste é que ele não te empurrou. Deixou. Provou. E sorriu.

Voltei pra casa rindo. Rindo de nervoso, rindo de quem entende tarde demais que “amizade eterna” é um termo com data de validade — e a tua venceu naquela esquina.

Nos dias seguintes, tu me evitaste. Bloqueaste minhas redes, como se o algoritmo fosse cúmplice da tua culpa. Mas o que tu não sabias é que o inferno tem Wi-Fi — e eu estava online.

Comecei leve: uma mensagem anônima pra ele, uma foto “acidental” enviada pra ti, um lembrete de que o passado não apaga fácil. Depois, um e-mail pro chefe dele, com um print conveniente. Um recadinho pro teu marido também, aquele tolo que acreditava em “retiro feminino de final de semana”.

Não demorou muito pra tua vida virar o que sempre me desejaste: um espetáculo. Só que sem aplausos.

Foi então que tu me procuraste — chorando, magra, desgrenhada, com o rosto de quem descobriu que o inferno é real. E eu, generosa, te ouvi. Te ouvi jurar que te arrependias, que ele te enganara, que nada significara. Eu até quis acreditar. Até quis te abraçar. Mas o perdão não mora mais em mim — alugou o quarto pra outra.

Tu me perguntaste o que eu queria.
Eu respondi: “Nada. Já cheguei onde disseste que ninguém chegaria.”

Ficamos ali, em silêncio. Duas mulheres lado a lado, respirando o mesmo ar rarefeito.
E, por um instante, achei ter sentido cheiro de enxofre.
Ou talvez fosse só o perfume antigo da nossa amizade queimando devagar.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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