"I Lost the Love of My Life"
Ela costumava acordar antes dele. Sempre.
Enquanto a luz da manhã ainda se insinuava pelas cortinas, ouvia o ritmo da
respiração dele — calma, constante, como o mar que descansa depois da
tempestade. Nunca contou, mas eram esses os instantes que mais amava: o
silêncio entre dois corações que ainda se escutam.
Agora, a cama é grande
demais.
Os lençóis, brancos demais.
A luz entra pela mesma janela, mas parece não saber mais onde pousar.
Dizem que o tempo cura. Ela
sabe que dizem por bondade, mas o tempo não cura — o tempo dobra.
Dobra a dor dentro de camadas invisíveis, como se dobra uma carta que não se
consegue jogar fora.
A tinta da memória nunca seca.
Ela ainda guarda a xícara
dele na prateleira da cozinha.
Todas as manhãs, enche de café, como se ele fosse entrar, meio sonolento,
procurando o sabor do costume.
Às vezes fala com ele, baixinho, palavras pequenas lançadas ao ar.
Às vezes sente um calor no ombro — talvez vento, talvez fé, talvez ele.
Lá fora, a cidade segue:
carros, risos, pressa, vida.
Ela tenta acompanhar, voltar a caminhar entre os vivos.
Mas há momentos em que a multidão se torna um oceano, e ela não sabe nadar.
Então fecha os olhos e repete, suavemente:
“I lost the love of my life.”
Não como lamento.
Não mais.
Mas como prece.
Como verdade que agora cabe no peito, pequena e infinita ao mesmo tempo.
Porque o amor — o
verdadeiro — não termina com a ausência.
Ele apenas muda de casa.
E em cada respiração que
ousa dar sozinha, em cada amanhecer que enfrenta sem ele, ela sabe:
ele está ali,
em algum lugar além da luz comum,
esperando o momento em que o tempo dela também se dobre —
para que, enfim, se encontrem outra vez.
Silvia Marchiori Buss
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