Luto é Luta, Luta é Luto

Há silêncios que gritam.

O luto é um deles.
Não o choro, nem o gesto, mas aquele instante suspenso em que o coração parece aprender a respirar de novo — do jeito que der, do jeito possível.

O luto não é ausência. É presença demais.
Presença do que foi, do que ainda é, do que não se apaga mesmo quando a vida parece apagar a luz.
É a luta diária de vestir o corpo com o peso da saudade e seguir, tropeçando, tropeçando, mas indo.

Lutar, às vezes, é continuar de pé quando a alma só quer se ajoelhar.
É acordar sem vontade e ainda assim fazer o café, abrir a cortina, olhar o dia — não porque se quer, mas porque é o que resta fazer.
É encontrar, no meio do cansaço, uma faísca de amor pelo que sobrou.

Há quem pense que o luto é o fim.
Não é.
É o intervalo em que a vida se refaz, mesmo sem querer.
É a pausa entre o que se foi e o que insiste em ficar.
É o campo silencioso onde a luta muda de forma: já não se grita, não se enfrenta — resiste-se.

Luto é luta quando o coração entende que lembrar também é uma forma de continuar.
Quando o amor se transforma em coragem, e a saudade, em espécie de abrigo.
E mesmo sem promessas, sem certezas, há algo que se ergue do chão — frágil, mas vivo.

Talvez essa seja a vitória possível: seguir, ainda que sem aplausos.
Caminhar com as mãos vazias, mas com o peito cheio do que não morre.
Porque, no fim, o luto é a luta mais humana que existe — a de permanecer inteiro quando metade de nós já partiu.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

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