Quando o Vento Voltar

Naquela manhã, o vento soprava de um jeito que ela reconhecia.

Não porque houvesse algo místico nele, mas porque trazia o mesmo cheiro de setembro — o mês em que Miguel se foi.
Elisa atravessou a praça com o casaco apertado no peito e a pressa dos que fingem não lembrar.
Mas lembrava.
Lembrava do jornal que ele lia todos os dias naquele mesmo banco, das migalhas de pão que guardava no bolso para os pardais, da mania de observar o movimento dos galhos como se pudesse decifrar o mundo por eles.

Desde que Miguel partiu, Elisa passava por ali com o cuidado de quem pisa sobre um lugar sagrado.
Nunca se sentava.
Até aquele dia.
Talvez fosse o vento, talvez o cansaço.
Sentou-se, olhou em volta e percebeu que tudo estava igual — exceto ela.

O vento virou as páginas de um jornal esquecido no banco ao lado.
Na manchete, lia-se: “O tempo muda de novo.”
Sorriu com ironia.
O tempo muda, sim — muda tudo, menos o que importa.

Elisa ficou ali por longos minutos, ouvindo o barulho das folhas no chão, o som distante de uma bola batendo no cimento, o sino da igreja marcando onze horas.
Pensou em como o silêncio se instala depois da perda: primeiro como dor, depois como rotina.
Aprendera a conviver com o vazio como quem aprende um idioma difícil — nunca fala com fluência, mas entende o essencial.

Ao se levantar, sentiu o vento bater no rosto.
Por reflexo, fechou os olhos.
Não havia mensagem alguma, nem sussurro, nem resposta.
Apenas o vento, como sempre houve.
E, ainda assim, algo nela se moveu — não o consolo, mas uma leve aceitação.

Enquanto caminhava de volta, Elisa percebeu que não pensava mais em quando ele voltaria.
Pensava apenas em como continuar a viver no mesmo mundo onde ele um dia existiu.
E talvez fosse isso o que chamam de seguir:
não apagar o que foi,
mas aprender a respirar o vento do depois.

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

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