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" Quando a Alma Pede Calma"

Não é sempre o corpo que primeiro se entrega. Às vezes, é a alma que, num gesto quase imperceptível, deixa cair os ombros invisíveis e suspira. Ela não geme, não se arrasta, não mancha o rosto de suor. Apenas sussurra — para quem sabe ouvir — um pedido simples: acalme-me . A alma se desgasta em terrenos onde o corpo jamais pisa. Cansa-se das conversas que nunca chegam ao que importa, das promessas que se quebram sem ruído, dos abraços que apertam o ar, mas não o coração. Ela se fatiga das esperas longas demais, das despedidas sem data, das verdades que chegam tarde. E se exaure também dos excessos bons: da intensidade que a consome, dos amores que queimam como brasas, da alegria que, de tão alta, deixa um eco dolorido quando se vai. Quando a alma pede calma, seu arco-íris muda. O vermelho ardente das paixões se recolhe para um rubor morno. O amarelo do riso se dobra, tornando-se um dourado quieto, como luz filtrada por cortina grossa. O azul sereno se aprofunda, ganhando o ...

" Flores de Plástico"

Eu sempre disse a ela que iria primeiro. Não era promessa nem superstição, era só aquela certeza tranquila de quem sente o peso dos ossos e acha que sabe o próprio limite. Eu, sim, vivia com os joelhos roncando nas manhãs frias, com o coração às vezes batendo fora do compasso. Ela parecia feita de luz e vento, como se o corpo dela não pesasse. Mas foi ela que se adiantou. Foi embora sem pedir licença. Sem aquele diálogo que os casais mais antigos, mesmo a contragosto, acabam tendo sobre a finitude. A gente nunca falou sobre isso. Não por medo, mas por pura confiança boba: eu iria primeiro, ela viria depois, com calma, quando o tempo já não fosse um fardo para nenhum dos dois. No dia em que ela partiu, fiquei sentado na beira da cama por horas. O quarto ainda tinha o cheiro do creme que ela passava nas mãos à noite. A xícara do café estava pela metade na cozinha. Tudo tão vivo que parecia sacrilégio aceitar a ausência. Mas a vida é impiedosa: cedo ou tarde, alguém pergunta o que f...

Como Não Percebi Antes

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— Como não percebi antes… — repetia Dona Lizete, com as mãos firmes sobre o peito magro do marido, onde o coração ainda pulsava, mas já em descompasso. A luz da tarde atravessava a cortina rendada do quarto e caía sobre o rosto dele como um lençol morno. A respiração estava curta, entrecortada por silêncios longos, como se ele lutasse por mais uns minutos dentro daquele corpo que já não obedecia aos comandos da vontade. — Você… sempre foi bom demais em esconder o que doía — disse ela, tentando manter a voz firme. — Até de mim, Zequinha. Justo de mim? Ele quis sorrir, mas apenas os olhos sorriram. — Eu não queria te preocupar, Lili… — disse num sussurro quase infantil. — Você sempre cuidou tanto de tudo… das crianças, da casa, da minha bagunça. Achei que, dessa vez, eu devia cuidar de você… escondendo. Ela abaixou a cabeça e umedecia seus olhos no peito dele. Não era uma mulher dada a choros. Não daqueles que se mostram. Mas agora… agora ela chorava sem escolha. — E me deixar fora disso...

Num Domingo de Sol

Num domingo de sol, ela saiu para caminhar. Não havia meta nem relógio, apenas o desejo de sentir o corpo mover-se, como se isso bastasse para organizar os pensamentos. Seguiu pelas ruas que conhecia de cor, aquelas onde cada esquina tinha um nome e cada muro, uma lembrança. Até que, sem querer — ou talvez querendo —, entrou numa viela que nunca tinha visto. Era estreita, guardada por árvores tão antigas que suas copas se encontravam acima da rua, formando um teto verde e úmido. O ar ali era mais denso, quase silencioso, e cada pedra do chão parecia contar passos de outros que também haviam se aventurado sem saber o destino. A princípio, achou que seria apenas um atalho. Mas, à medida que caminhava, percebeu que não havia retorno. O ponto de onde viera se dissolvera atrás dela, como se o mundo conhecido tivesse fechado a porta. Foi aí que começaram os devaneios. E se eu ficasse aqui para sempre? — pensou. Imaginou-se sentada no chão, deixando o tempo escorrer sem pressa, até ...

Despedida...

Dar adeus dói demais. Não importa se é um amor, um amigo ou a própria vida que está ali, na beira da estação, na soleira da porta, na última dobra do tempo. Dói porque a despedida carrega sempre um pedaço da gente, e ninguém sai inteiro depois de partir ou ser deixado. Há despedidas longas, ensaiadas em silêncios, como se a gente se acostumasse à ausência antes dela chegar. E há aquelas súbitas, que atravessam a garganta sem pedir licença, como um vento frio que invade a sala. Entre amores, a despedida tem o gosto do que não foi dito. O corpo ainda quente, a cama ainda desarrumada, mas a decisão já feita. Entre amigos, ela pesa de outro jeito — um aceno que não se sabe se terá volta, um “a gente se fala” que o tempo vai desbotando. E, com a vida, a despedida é a mais silenciosa de todas. Vem sem aviso ou com um calendário de dias contados, mas nunca no momento certo. Ninguém está pronto para não estar. Talvez o que doa tanto não seja o ato de se despedir, mas a certeza de que ...

Ele Não Disse Sim

A igreja estava linda. Jasmim branco pendia dos altares como se a primavera tivesse ensaiado só para aquele dia. As velhinhas da família já choravam antes mesmo da marcha nupcial, e os padrinhos — todos com a cara suada e o terno apertado — tentavam disfarçar a emoção com sorrisos forçados e piadas infames. Ela entrou radiante. Vestido de renda francesa, bordado à mão pela tia-avó que jurava ter costurado até para missas do Vaticano. A música soava como trilha sonora de filme romântico, e os fotógrafos clicavam com a fome de quem achava que aquilo era mesmo o começo de uma eternidade. Do lado do altar, ele. Terno impecável, cabelo engomado, olhos ligeiramente arregalados como quem viu um fantasma de véu. — Está tudo bem? — cochichou o padrinho. — Tá — ele disse, com a convicção de quem diz que vai parar de beber segunda-feira. O padre era desses simpáticos, moderninhos. Começou o sermão com piadinhas sobre sogras e terminou com metáforas sobre o amor ser uma plantinha. A noiva...

Aurora Boreal

O céu desabou às três da tarde. Não com chuva. Nem com trovões. Desabou em silêncio. Um silêncio tão alto que as pessoas desligaram os ventiladores para ouvir melhor. Veio primeiro uma sombra estranha, um escurecer suave que não fazia sentido naquele janeiro de quarenta e dois graus. E então, como se o universo tivesse cometido um deslize estético, surgiram as luzes: verdes, lilases, azuis, dançando sobre os prédios como véus de um espetáculo fora de hora. Alguém gritou “é o apocalipse!” Alguém sussurrou “é milagre.” E um padre, de batina frouxa e fé quase vencida, caiu de joelhos no cruzamento da Av. Getúlio Vargas com a Osvaldo Aranha e murmurou, com a voz trêmula: — Ela voltou. “Ela quem?”, perguntaram. Mas o padre só fechou os olhos, como quem não precisa mais entender. No centro da praça, sob um flamboyant ardendo em flores cor-de-sangue, havia uma mulher dançando. Vestia um casaco de lã lilás — isso mesmo, lã, em pleno janeiro — e seus cabelos pareciam em estado d...