" Quando a Alma Pede Calma"

Não é sempre o corpo que primeiro se entrega.

Às vezes, é a alma que, num gesto quase imperceptível, deixa cair os ombros invisíveis e suspira.
Ela não geme, não se arrasta, não mancha o rosto de suor. Apenas sussurra — para quem sabe ouvir — um pedido simples: acalme-me.

A alma se desgasta em terrenos onde o corpo jamais pisa.
Cansa-se das conversas que nunca chegam ao que importa, das promessas que se quebram sem ruído, dos abraços que apertam o ar, mas não o coração.
Ela se fatiga das esperas longas demais, das despedidas sem data, das verdades que chegam tarde.
E se exaure também dos excessos bons: da intensidade que a consome, dos amores que queimam como brasas, da alegria que, de tão alta, deixa um eco dolorido quando se vai.

Quando a alma pede calma, seu arco-íris muda.
O vermelho ardente das paixões se recolhe para um rubor morno.
O amarelo do riso se dobra, tornando-se um dourado quieto, como luz filtrada por cortina grossa.
O azul sereno se aprofunda, ganhando o peso misterioso das águas que não deixam ver o fundo.
O verde da esperança repousa sobre si mesmo, como folha caída.
E o cinza — sempre ele — se insinua por entre todas as outras cores, não para apagá-las, mas para lembrá-las do necessário descanso.

Nesses dias, a alma não quer espetáculo.
Quer sombra de fim de tarde.
Quer o silêncio de um quarto onde só se ouve o próprio respirar.
Quer o aconchego de um canto que não peça explicações.
Ela não quer desistir — quer pousar.
Deixar que o que é turvo assente no fundo. Que a maré baixe sozinha.

E há algo de sagrado nesse recolhimento.
Não se trata de fugir do mundo, mas de se permitir existir sem provar nada.
O corpo descansa numa cama; a alma repousa num lugar sem mapa, onde o tempo não corre e as exigências não chegam.

A calma da alma é outra forma de viagem:
um mergulho lento e profundo, onde se toca a própria borda para medir o que está inteiro e o que precisa ser colado.
É esperar, com paciência de rio, que as cores voltem sozinhas, pela ordem que escolherem.

Porque, no fim, até a alma — com todas as suas nuances, memórias, amores e dores — tem o direito de se deitar à sombra, fechar os olhos e simplesmente ser.

 

 

Silvia Marchiori Buss

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